Rentabilidade do Conhecimento

Millôr Fernandes era cético e afirmou certa vez sobre esse estilo de vida: “Vocês não sabem como é divertido o absoluto ceticismo. Pode-se brincar com a hipocrisia alheia como quem brinca com a roleta russa com a certeza de que a arma está descarregada.”

Brinquei hoje, em silêncio, pois apesar de ser também fã do ceticismo, não o sou dos alvoroços, de roleta russa com a parvoíce de minhas “peer conselours“, que estão aparentemente a minha inteira disposição para me ajudar a impor a mim mesmo metas e meios pelos quais a elas devo chegar com o propósito de facilitar a melhora de minhas habilidades. Durante duas horas escutei dois membros do corpo docente da mais prestigiada instituição de ensino na área de hospitalidade no mundo me aconselharem (como o próprio termo em inglês propõe) a como eu devo estabelecer feições exatas da minha personalidade que devo manter bem desenvolvidas, se for esse o caso, ou que devo melhorar, se elas não suficientemente desenvolvidas forem. Ouvi discursarem como é essencial, tanto em nossas vidas profissionais quanto pessoais, que progridamos rumo a um ideal, um profissional mais completo, mais cabal, visando a um maior sucesso em futuras relações empresariais com um possível maior lucro. Tudo isso feito por meio de um software de computador, um programa no qual encontram-se diversos formulário que devemos preencher da forma mais fiel possível para que o sistema possa, da forma mais adequada, nos guiar por nossa auto-evolução. Assisti duas mulheres mais velhas que eu, certamente muito bem academicamente formadas, me apresentarem esse método, que é agora testado pela primeira vez na Europa, e me senti acanhado pela ideia de que as considerava inteiramente ingénuas e pelo fato de não ter sido prestígio, mas sim ilusão, o que vi no projeto. Senti saudades de minhas aulas de filosofia e da admiração que sentia pelo mestre que as ministrava. “As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”, disse uma vez meu então (e eterno) projeto predileto, Nietzche, expressando de modo tão magistral – o que também tento exaustivamente fazer – o que agora quero dizer. Contristou-me a lembrança dos sopros de genialidade aos quais éramos expostos durante as sessões nas quais não éramos ensinados a como equalizar o próprio aperfeiçoamento através de uma máquina, mas sim cultivados pela investigação das grandes causas e dos grandes efeitos, pelo questionamento de primazia de nossa razão e da validade de nossas crenças e do nosso conhecimento, pelo amor ao saber. Nas quais éramos aduzidos aos verdadeiros problemas da imparidade humana, da prudência de nossa identidade, da reflexão sobre os mecanismos do amor, da inconstância da felicidade, da meditação sobre a possível irresolução da Verdade. Me ocorreu então que, de fato, o que de mais magnífico que poderíamos possuir naquilo que conhecemos agora como nossa curta existência é justamente aquilo que de nós nunca pode ser tomado: nosso saber. Me senti então verdadeiramente prestigiado. Prestigiado por saber daquilo que hoje sei, e por saber que disso saberei para o resto da minha vida. Por saber da minha paixão pela filosofia e suas entranhas, e por saber que é dela a maior rentabilidade que terei como profissional e como cidadão: terei sempre o lucro de poder sentir, de poder compreender e de poder criar. Terei o eterno lucro de viver. Isso para mim é prestígio.

2011

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