s.t. (aforismo de Kafka)

Ela deita a cabeça no meu peito, seu rosto sobe e desce com a minha respiração, seus olhos expiram e minha camisa fica molhada em lágrimas mornas. Ficamos mergulhados nesta cama melancólica, seu corpo paralelo ao meu e ninguém fala nada. Aos poucos, vamos digerindo tudo que foi dito. Ou talvez seja um esforço mudo para que nada mais seja declarado. Essas tardes caladas são cada vez mais frequentes. Com um resto de fôlego ainda conseguimos reivindicar nossos corações em busca de compaixão, tomando aquele mesmo caminho de sempre, um tentando persuadir o outro a amar da própria forma. Logo desistimos. Logo não se valem mais os berros, logo é mais fácil calar, logo não dá mais para continuar assim. Um choro de alívio, um suspiro rendido, retomamos mais tarde… Como uma trilha no outono: mal foi varrida, cobre-se outra vez de folhas secas*. Por enquanto o amor está quite.

*Aforismos Reunidos, Franz Kafka (Serrote, 2009)

-2016

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