Regina

Regina era o nome que ele tinha tatuado no braço. De comprido, ocupando todo o espaço entre o cotovelo e o pulso. A letra barroca, o R todo floreado, a tinta escura eternizada na epiderme. Um corpo desfigurado, o ritual da cicatriz, a oferenda do órgão ao amor. Às vezes ele ainda sentia a inscrição latejando, esgarçando-lhe a pele, pulsando com o sangue corrente: Regina, Regina, Regina. Então buscava o celular no bolso e procurava seu nome no aplicativo de mensagens. Abria a conversa vazia e via seu rosto na foto de perfil, o rosto que já quase não mais reconhecia, ao lado do nome, pelo menos o nome que ainda lhe era familiar. Regina. E logo abaixo, em raras ocasiões, surgia, online. Regina, online. Do outro lado da tela, com o aparelho certamente em punho, ambos presentes no mesmo instante como há muito não mais, no mesmo espaço-tempo, Regina. E logo o sinal que indicava sua conexão sumia e sobravam-lhe apenas o chat brilhando, a fotografia alheia, e o nome dela tatuado no braço. Para sempre.

-2017

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