s.t.

diziam, Gabriel é teu nome
o papel nas mãos
nas próprias mãos obscuras
nas mãos amassadas
vinha escrito, Gabriel
nas ranhuras das palmas
a certidão do nascimento
datando dia mês e ano
além de horário e local
do começo de sua vida
por mais desconhecido que fosse
mesmo que já não mais se lembrasse
eles diziam, teu nome é Gabriel

-2018

s.t.

ontem passou o dia chovendo
e nos muros eu lia que “a rua
chora”, chora pros lados,
pra todos os cantos,
chora das próprias calçadas,
exsuda pelas ranhuras entre
os paralelepípedo um chorume,
um pranto fétido que não acaba,
que deixa na boca um gosto de lixo,
que afoga todos em uma lamúria
infinita. ontem passou o dia chovendo
e nós aqui não estamos preparados
pra tanta tristeza.

-2018

diálogos

Ela abre a porta e veste branco, uma cor que nunca a vi usando. Antes de mais nada, ela solta um longo suspiro de puro deleite.

“Oi.”

Sua voz parece um pouco mais grave que o normal. Talvez aqui, em sua própria casa, ela assuma seu verdadeiro tom aveludado. Talvez ela esteja apenas tentando parecer sensual.

“Tudo bem?”

“Sim, vem, entra.”

Largo a garrafa de vinho sobre a mesa de jantar logo ao lado da entrada e olho ao redor, olho todos os detalhes do apartamento, tentando decifrá-la.

“Linda a sua casa.”

Os livros, a maioria da editora em que ela trabalha, ocupam todas as suas estantes, estão apoiados sobre algumas das cadeiras, empilham-se em cantos do chão, parecem destroços, ela vivendo soterrada. Não sei se tomo aquilo como sinal de seu sedento intelecto ou como sintoma de um transtorno de acumulação.

“Senta aqui, vou buscar um hummus que fiz agora há pouco.”

O chão é de madeira escura, envelhecida, o ambiente pouco iluminado, os móveis esparsos, de bom gosto. Ela tem alguns posters pelas paredes, um filme iraniano para lembrar suas origens persas, um mapa antigo de Berlim, a foto de uma pintura de Chaim Soutine, daquelas que se compram em lojas de museus, nenhum quadro de verdade.

“Você gosta de azeite?”

“Gosto.”

Rasgo um naco do pão sírio e mergulho-o na pasta afogada em azeite de oliva. Ela me observa enquanto mastigo, observa os movimentos firmes da minha mandíbula que flexiono lentamente, sinto-me observado e acho que gosto.

“Vamos abrir seu vinho.”

Eu a acompanho com o olhar e noto o corredor escurecido que leva ao quarto, onde a noite que agora dividimos certamente acabará. Eu já notara suas mãos antes, seus movimentos delicados, comedidos, a forma como gesticulava, significando com os movimentos cada uma das palavras que saía de sua boca. A maneira como ela saca a rolha da garrafa é uma obra prima.

“Saúde.”

Tomo um gole da taça um pouco cheia demais e entendo que ela me serviu cheia de intenções. Falamos dos acontecimentos da semana, que nos levam ao um papo sobre política, de onde seguimos para os desejos que ainda nos afligem, revisitando nossos gostos em comum. Escuto ela declarar suas paixões por alguns cineastas, assumir suas invejas de alguns autores, tudo enquanto sorve, mais rapidamente que eu, o vinho barato que comprei.

“Sinto cada dia mais que a grande realização da vida adulta é que nunca nossos sonhos serão realizados, que a verdadeira maturidade é uma constante retração das nossas expectativas, até que finalmente elas encontrem o limite da realidade, onde talvez poderemos encontrar o contentamento.”

Concordo com ela, mas não falo nada. Fico quieto e escuto ela falar de todas as suas angústias numa onda de honestidade que chega com os últimos goles da segunda taça. Enquanto ela despe sua mente continuo reparando nos pequenos sinais de sua rotina: a maneira como ela coloca as folhas mortas sobre a terra nos vasos das plantas, o tubinho de vitamina c caído sobre a estante, uma pequena mancha preta na almofada que ela segura sobre o colo. Ela arrumou tudo antes da visita, mas para além do cortejo, da voz aveludada, do hummus e da forma como ela discursa calculadamente, sei que estou o mais próximo que já estive de conhecê-la, por completo. Quando a beijo, sinto que ela se entrega aqui também, de corpo, confiando totalmente em mim. Sinto nos seus lábios trêmulos, que agora exalam um leve aroma de uva, uma ligeira hesitação, aquele breve impulso de arrependimento que seguem todas as nossas escolhas, as certas e as erradas. Então tomo ela pelas mãos graciosas e a conduzo atrás de mim pelo corredor escuro até o quarto, como se todos os cômodos da casa fossem agora meus também.

-2018

s.t.

Há dias em que acordo frágil. Sinto a alma quebradiça, suscetível a todas as brutalidades do mundo, e tenho vontade de embalar meu coração em plástico bolha. Preciso de uma etiqueta que sinalize a todos, cuidado.

-2018

s.t.

caminho, trôpego,
a voz rouca de uma
tia-avó que só fumava
de quem nunca mais soube.
tropeço,
a laranjeira que crescia
no jardim da infância
que podaram até
às raízes.
reconheço os cômodos
da casa que já não
é mais a mesma,
que já definha como
tudo, como eu mesmo,
e sigo, em frente,
na via de mão dupla
da memória.

-2018

s.t.

subi até o terraço segurando tua mão
você na frente me puxando escadas acima
insistindo que o nascer do sol é mais bonito
que o se pôr
minhas pernas sonolentas acompanhando
as tuas até chegarmos na laje coberta de estrelas
onde você me agarrou de frio e ficou
debaixo dos meus braços enquanto o horizonte
se ascendia e eu sentia teu corpo
se aquecendo contra o meu
o calor ascendente da alvorada
secando o orvalho da tua pele
serenando os teus arrepios a medida
que o dia nascia para a gente

s.t.

Ela olha pra ele longe, do outro lado de uma multidão que ele atravessa mais rápido do que ela imagina possível. Logo está muito perto, perto demais, e sorri com uns dentes sacanas, mexe o torso nu numa íntima intimidação, desfere seduções indiscerníveis ao pé de seu ouvido. Ela diz que não. Ele a segura pelo braço todo pintado em purpurina, enlaça a mão em sua cintura despida e se derrama em amores vadios – que ela é linda, que foi destino, que é carnaval. Ela diz que não. Ele escolhe subentendê-la e com os lábios grossos e salgados rouba dela um beijo de carnaval, um beijo conquistado. Ela fica com o gosto do não na boca.

-2018

Quintino

na notícia do dia, uma linha dá conta da tragédia:
uma mulher e um homem estavam em casa
e foram atingidos por um deslizamento de terra
em Quintino.
em casa, no meio da madrugada, sob um céu em lampejos
dormiam uma mulher e um homem
debaixo de seus tetos, abrigados
depois do meio expediente de uma quarta-feira
de cinzas
em meio ao maior temporal
a um estágio de crise
à falta de energia e alagamentos
ao recorde histórico registrado
os dois dormiam na noite
mais clara do ano.

-2018

s.t.

Sabes que te observo enquanto você me olha dormir? Consigo ver o teu rosto concentrado através das frestas das minhas pestanas cerradas enquanto abro levemente os lábios e forço espasmos sonolentos no rosto. Você gasta um longo tempo com a cabeça apoiada sobre o travesseiro, bloqueando a luz fraca do abajur, e eu quase consigo ver minha própria imagem nos teus olhos negros. Pergunto-me se você sabe que estou fingindo, se mantemos esse hábito só pra poder partilhar de um mesmo segredo sem nunca precisar revelá-lo.

-2018