s.t.

Depois de um longo silêncio em que os dois escutavam suas respirações sincronizarem-se, imaginando todas as possíveis descobertas que fariam um sobre o outro, assim como ainda há pouco haviam desvendado o segredo de suas intimidades, enquanto a luz do sol ia agora desaparecendo atrás das cortinas do quarto, ela enfim pergunta, saciando a mais honesta curiosidade, se ele, dado a chance, ingressaria numa viagem sem volta a Marte.

-2018

s.t.

It was dancing that she fully seized her personality. Swaying her shoulders back and forth, allowing her long arms to dangle gracefully like two silk strips rocking on each side of her slender torso, making sure she wittily snapped her fingers at the end of each movement, as if to mark the tempo of her own body. Her hips seemed to defy gravity as they traced different geometries in the air around her waist, her feet steadily planted on the ground just because she liked the challenge of not being able to move them. All along, her eyes are shut and her lips are slightly open, that’s the way she focused all her attention to her hearing, so that she could welcome the music into herself in a full surrender. Dancing gave her an unwavering sense of who she was.

-2018

Regina

Regina era o nome que ele tinha tatuado no braço. De comprido, ocupando todo o espaço entre o cotovelo e o pulso. A letra barroca, o R todo floreado, a tinta escura eternizada na epiderme. Um corpo desfigurado, o ritual da cicatriz, a oferenda do órgão ao amor. Às vezes ele ainda sentia a inscrição latejando, esgarçando-lhe a pele, pulsando com o sangue corrente: Regina, Regina, Regina. Então buscava o celular no bolso e procurava seu nome no aplicativo de mensagens. Abria a conversa vazia e via seu rosto na foto de perfil, o rosto que já quase não mais reconhecia, ao lado do nome, pelo menos o nome que ainda lhe era familiar. Regina. E logo abaixo, em raras ocasiões, surgia, online. Regina, online. Do outro lado da tela, com o aparelho certamente em punho, ambos presentes no mesmo instante como há muito não mais, no mesmo espaço-tempo, Regina. E logo o sinal que indicava sua conexão sumia e sobravam-lhe apenas o chat brilhando, a fotografia alheia, e o nome dela tatuado no braço. Para sempre.

-2017

tangerina

 

me apaixono toda vez que te vejo comer uma tangerina
deitado em deleite assistindo aos teus dedos
arrancando o caule seco e perfurando a casca rugosa
descamando aquela cobertura laranja-lustrosa
explodindo o nosso quarto em perfumes cítricos
que depois custam a sair dos lençóis
fico todo inspirado a cada gominho arrancado
a maneira como extrais as pequenas fibras do bagaço
tão delicado
e um calafrio me sobe à espinha
toda vez que tu levas à boca um daqueles diamantes
e decides partir com os dentes a fruta ao meio
toda arrepiada com a acidez do suco que te escorre
pelos lábios

lá em casa sempre haverão tangerinas

-2017

continue e não desista

vista rio de janeiro nascer do sol

Cartões de embarque em mãos, “continue e não desista”, pensei. Da pequena janela ao lado da qual me sentei vi todo o meu universo diminuir de tamanho. Os cenários de todas as minhas memórias, minhas conquistas e derrotas, meus primeiros e últimos amores, todos os meus melhores e piores dias. Tudo agora ia se distanciando em uma maquete viva, um monte de terra, uma geografia irreconhecível. Eu parti, deixei tudo para trás, e nunca mais seria o mesmo.

gabrielabreu

-2016

fragância

fragância de amor preso em um armário vazio sem roupas

Abri o armário e senti teu cheiro,
Mas tuas roupas não estavam mais ali.
Os cabides pendurados estavam nus,
Viraram esqueletos da memória daquelas peças
Que tocaram tua pele como eu,
Que cobriram o teu corpo como eu,
Que te esquentaram.

Agora é um ar vazio que preenche aquele
Espaço escuro.
O teu cheiro, porém, perdura.
Aquela mistura do teu perfume
Com o aroma da tua tez
Que só se achava no teu cangote
E que só se acha naquele armário.
A tua fragrância.

-2017

s.t. (aforismo de Kafka)

Ela deita a cabeça no meu peito, seu rosto sobe e desce com a minha respiração, seus olhos expiram e minha camisa fica molhada em lágrimas mornas. Ficamos mergulhados nesta cama melancólica, seu corpo paralelo ao meu e ninguém fala nada. Aos poucos, vamos digerindo tudo que foi dito. Ou talvez seja um esforço mudo para que nada mais seja declarado. Essas tardes caladas são cada vez mais frequentes. Com um resto de fôlego ainda conseguimos reivindicar nossos corações em busca de compaixão, tomando aquele mesmo caminho de sempre, um tentando persuadir o outro a amar da própria forma. Logo desistimos. Logo não se valem mais os berros, logo é mais fácil calar, logo não dá mais para continuar assim. Um choro de alívio, um suspiro rendido, retomamos mais tarde… Como uma trilha no outono: mal foi varrida, cobre-se outra vez de folhas secas*. Por enquanto o amor está quite.

*Aforismos Reunidos, Franz Kafka (Serrote, 2009)

-2016

Enciclopédia de Talheres

Os talheres são objetos criados com o intuito de auxiliar o ato da alimentação humana. Consistem em longas ferramentas compostas, em uma de suas extremidades, por um cabo, onde se dá o seu manuseio, e, na outra, variando de talher para talher, de diferentes formatos de metal, onde se dá a sua utilidade, tendo como intuito comum o de levar bocados de comida à boca. Os feitios das extremidades úteis de cada um desses objetos similares diferenciam-se da seguinte maneira:

1. A faca

Extremidade que corta. Consiste geralmente em uma lâmina de metal que, em um de seus lados, afina-se cada vez mais até formar um gume, cujo fio executa a incisão. Interrompe assim uma ligação, como as fibras de um pedaço de carne de vaca, a trilha das sementes de um pepino, ou o trançado de um croissant de chocolate. Por vezes, tem dentes que serram alimentos mais difíceis de serem divididos em uma única moção, como um pão francês, o qual talha-se mais eficientemente por um vai e vem da lâmina dentada. Existem ainda os tipos de faca que não cortam, aquelas desgastadas, porém nunca descartadas da coleção do refeitório da empresa onde se trabalha. Essas são geralmente utilizadas com o principal intuito de empurrar as últimas porções do almoço para cima do garfo. São também as facas mais seguras de se lamber, já que, uma vez carecas, não oferecem perigo nenhum à língua que busca os restos de uma fatia de torta ou de uma pasta de amendoim.

2. A colher

Extremidade que colhe. Consiste em um metal em formato de concha, usado principalmente no apanhamento de líquidos comestíveis, como sopas e cremes. É recomendável que seja inserida por inteiro dentro da cavidade bucal durante a ingestão de seus conteúdos. É importante não sugar o líquido da colher e evitar que os dentes batam no metal, pois entende-se no Ocidente que é descortês causar barulhos durante a refeição. A colher pode ainda ser introduzida na boca em posição invertida, de costas para cima, no caso de alimentos mais viscosos, que grudam, como o brigadeiro de panela, ou o doce de leite. Dessa forma, a superfície da língua preenche mais inteiramente a concavidade da colher, maximizando assim a satisfação daquele que come.

3. O garfo

Extremidade que espeta. Consiste em um metal de três a quatro dentes alinhados, levemente curvados, que segue ora o mesmo método de apanhamento de alimento da colher, ora seu próprio processo de cravação de seus espetos no alimento. Não se recomenda a estratégia de fincar no caso dos alimentos dificilmente trespassados, geralmente aqueles de formato redondo, como ervilhas, ovos de codorna e cebolinhas em conserva. Diferentes dos da faca de serra, os dentes do garfo são longos e pontudos, como no cedro de Netuno, e podem assumir também o papel da faca, sendo possível usar sua lateral para cortar o alimento quando se há preguiça de usar as duas mãos aos mesmo tempo. Por esse motivo, o garfo é o talher mais versátil. É passível, no entanto, de ter seus dentes entortados e desviados em diferentes direções, o que o inutilizaria. Nesse caso, entretanto, basta introduzir-se uma faca por entre os dois dentes em cada um dos lados daquele empenado e força-lo de volta à posição correta.

-2016

O jogo de tênis

Dois tenistas em lados opostos de um campo de batalha. Joelhos flexionados e antebraços atentos, posição de ataque com espadas em punho. Na eminência do golpe, aguardam pacientemente em silêncio, até desferirem a pancada fatal contra o seu adversário. Trovão gutural. Deixam pairar sobre o ar pequenos fiapos fluorescentes da bola, que agora perfura penosamente o espaço pesado e opaco entre eles feito de luta, calor e suor evaporado. Choque. A cada disparo e guinada de pés, mais saibro no ar, se alastrando feito fogo, criando uma neblina incandescente sobre a quadra, a arena em chamas, tingindo toda a atmosfera e a pele dos soldados de um rubro sangue. Guerra. O combate lhes escorre pelo rosto, a respiração é ofegante, o público delira. Circenses. Entre ações e reações, sofrem-se pequenas derrotas, alcançam-se pequenas vitórias, e a resolução de ambos se mantém inabalável. Corpo a corpo, buscando redenção e glória. Seu esforço é heroico, sua faina é intensa, é um jogo violento, um duelo mortal. São gladiadores.

-2016

Os Filhos de Sandra

A única outra vez que ele tinha ido à Guapimirim havia sido na ocasião de um outro enterro, do marido de Sandra. Ele não devia ter mais de sete anos na época, mas uma imagem daquele dia perdurara e rastejava agora insistentemente para dentro de sua cabeça – o caixão, o primeiro de sua vida, mirado de longe pelo para-brisa molhado, as gotas escorrendo devagar e distorcendo as silhuetas das poucas pessoas presentes no cemitério. Seus pais haviam ficado dentro do carro com ele, apenas observando, dois espectadores alheios ao horror daquele dia que afligia aquelas poucas pessoas curvadas na chuva. Era fácil distinguir Sandra dos outros naquele pequeno grupo, mais ainda por ser ela quem todos consolavam. Já então ele tinha a impressão de ter ouvido seus pais falando que o marido dela bebia muito, que batia nela e nos filhos e que acabaria matando a si mesmo. Mas talvez tivesse imaginado isso, ou se de fato tivesse ouvido, não prestara atenção. André ainda não tinha posse do sentido da barbaridade, nem nunca viria a ter como quem recebia, do outro lado, a fivela. Sabia, no entanto, que Sandra sofrera pelas mãos vivas do marido e sofria agora por seu corpo morto, e então seu pequeno coração solidarizava-se. “Isso é assunto de família, André”, sua mãe justificava a negativa quando ele pedia para sair do carro. Haviam dirigido da Barra da Tijuca até o pé da serra para levar Sandra até sua casa assim que ela teve a notícia de que seu marido havia sofrido um ataque do coração. O pai de André havia se oferecido para bancar o enterro e determinou que Sandra tirasse o resto da semana de folga. Na despedida, Sandra agradeceu por toda compaixão mais uma vez, beijou o filho de seus patrões na testa e voltou para sua família.

Desde então André nunca mais pensara nem ouvira falar no nome daquele homem. Até o dia em que voltou a Guapimirim, depois de todos os anos passados, para ver, desta vez de perto, ser sepultada ao lado da cova de seu falecido esposo, sua babá Sandra. Toda de branco como ele sempre a conhecera em sua casa, Sandra tinha uma expressão de eterna serenidade que André nunca antes havia visto em sua face. A mulher que trabalhara desde os treze anos de idade para sustentar, viúva, os sete filhos, havia finalmente entrado em um repouso impassível. A obra de sua vida, toda sua família, parentes e amigos, estavam presentes no velório. Seus 21 netos, suas comadres de décadas, todos os foliões da escola de samba que havia ajudado a fundar anos atrás, secretários da prefeitura da cidade para quem ela era como uma tia, dezenas mais que haviam cruzado caminhos com ela durante sua vida. Todos e André. O menino que ela havia criado para criar os seus. Seu filho branco. André faltou a aula na faculdade aquele dia e dirigiu ele mesmo até o local onde sua mãe de criação – como costumava chamá-la – seria enterrada. Veio sozinho dessa vez, sua mãe estava viajando e seu pai, ocupado. Este deu-lhe, no entanto, quinhentos reais para que o filho desse à família de Sandra, para ajudar com quaisquer despesas. Sandra, na verdade, já não trabalhava na casa da família há quase um ano, desde que havia ficado muito cansada para dar conta do serviço. Ela tinha a mesma idade que os patrões, mas o tempo sempre passara mais rápido para ela. Seu pai decidiu dispensá-la e desde então André não a via.

Sandra chegara à casa dos pais de André quando tinha 35 anos, ele ainda recém-nascido. Já havia passado duas décadas na casa dos outros, no trabalho doméstico. Cozinhava, limpava, lavava, passava e era babá. Não havia chegado à metade do ensino fundamental, mas era esperta, resoluta e aprendera a causar uma boa impressão. A mãe de André havia recebido uma recomendação de uma amiga para quem Sandra trabalhara – ela era honesta, trabalhadora, comportada e limpinha. Foi contratada depois de uma conversa no apartamento e na segunda seguinte foi trabalhar para um novo Seu e uma nova Dona. Os patrões eram bons para ela. Recebia um pouquinho mais que o piso salarial, além de ter plano de saúde e transporte pagos. Sandra fazia o trajeto da beira da região serrana até a zona oeste do Rio toda segunda. Saía de casa às 4 da manhã, sem acordar nenhum dos filhos, para pegar duas conduções e chegar a tempo de fazer o café. Alguma prima, tia ou amiga sempre olhava as crianças, mas naquela época suas meninas mais velhas há muito já trabalhavam, toda semana seguindo o mesmo destino da mãe. As do meio ajudavam a tomar conta dos irmãos, exercitando o futuro ofício. Sandra voltava a ver os filhos só na sexta-feira, quando chegava em casa quase à meia-noite, exausta e feliz. Nos dias de semana dormia no quartinho nos fundos da cozinha, ao lado da área, no serviço. Tinha uma cama boa, uma janela para o varal, uma televisão e um ar condicionado de parede. Os patrões eram bons para ela.

Sandra cozinhava e tomava conta de André. Logo que começou na casa se apaixonou pelo menino, com o cabelo virado em cachinhos e de olhinhos verdes. A patroa ficou em casa por alguns primeiros anos, parando de trabalhar, dando atenção ao primogênito sempre que Sandra não precisava. Dava-lhe de mamar, Sandra o fazia arrotar, dava-lhe banho, Sandra trocava-lhe as fraldas, e vice-versa. Ela assumia para Sandra fazer o almoço e arrumar as camas, e podia depois descansar da arduidade de ser mãe. Aprendeu os artifícios da incumbência com a babá, que já era experiente. Acabou acostumou-se à sua companhia, já que o marido voltava do trabalho só tarde da noite. Mal se preenchia a casa com a presença das duas mulheres e do menino, mas Sandra gostava da paz para trabalhar. A lavagem das roupas e a faxina eram uma outra moça que vinha todo dia que fazia, cargo que logo foi ocupado por uma das filhas de Sandra. O patrão aceitou seu pedido de trazer uma delas para o serviço quando a diarista pediu demissão e veio a mais velha ficar junto da mãe. A mãe de André ficou com receio das novas circunstâncias atrapalharem o funcionamento da casa, mãe e filha juntas tanto tempo talvez desse problema. Mas a garota puxava à mãe e tinha boa índole. Algum tempo depois, Sandra conseguiu também trazer um de seus filhos para cuidar do jardim. Seu patrão construiu um pequeno aposento nos fundos do quintal para os funcionários e a casa passou a ter duas famílias. Ele também emprestou dinheiro à Sandra para a construção de uma casa em Guapi, que ela pagou com um pequeno desconto de seu salário durante alguns anos depois. Não foi o único sonho que lhe realizaram. Ela conheceu também os Estados Unidos, quando André ainda era pequeno e a família viajou para a Disney, levando-a junto para ver o mundo, contanto que não tirasse os olhos do menino. O patrão era um homem taciturno, alto e sólido como um touro, porém generoso com ela. Sandra tinha enorme gratidão àquelas pessoas, passou a vida pedindo a eles a benção de Deus, e provavelmente morreu acreditando-se devedora.

Para o menino, Sandra era como uma mãe. Acostumado à babá desde que se entendia por gente, quando criança, André só conseguia dormir se Sandra deitasse ao pé de sua cama até que ele pegasse no sono. Sua mãe dava-lhe um beijo de boa noite, e Sandra ficava com o menino, contando-lhe suas velhas histórias no escuro, até que ele pegasse no sono. Aquela de que André mais gostava era a de Rosaflor e a Moura-Torta, que contava a história da mulher de pele escura e enrugada que diariamente tinha de buscar baldes e baldes de água para seus senhores, e que um belo dia fincava uma agulha na cabeça de uma linda moça que ria de sua feiura, transformando-a em uma pomba e tomando sua identidade em represália para casar-se com o príncipe prometido à bela. No fim, a moura era desmascarada, permitindo que a moça voltasse a ser linda como antes e vivesse para sempre junto de seu nobre marido. Apesar do final feliz, André sempre sentia pena da vilã, que sempre voltava a carregar baldes de água e ser maltratada por conta de sua feiura. Sua mãe não gostava que Sandra lhe contasse aquelas histórias sórdidas demais para uma criança, mas ele insistia todas as noites quando ela os deixava sozinhos e Sandra acatava. A babá vivia fazendo suas vontades. Assistia os mesmos desenhos animados incontáveis vezes, preparava-lhe todos os lanches prediletos, oferecia colo sempre que ele era castigado pelos pais. André cresceu encontrando tremendo conforto no ventre quente de sua babá, no grave som das melodias murmuradas que ela produzia com o fundo da garganta, no cheiro de preparo de comida que ele sentia em suas mãos e roupas. André gostava de passar os dedos pela sola do seu calcanhar, toda esbranquiçada e áspera com o gasto dos anos duros, suas graves linhas marrons nas palmas das mãos, seu grisalho cabelo tonhonhoim cortado curtinho. Gostava de ir com ela à feira para comprar frutas e verduras, vivia rodeando-a na cozinha sempre que ela estava preparando as refeições, gritava seu nome sempre que ralava um joelho pelo jardim. Sandra ia correndo, acudir seu menino, seu Dézinho. Dézinho de Sandra. Ela via o seu menino crescer e sempre lhe enchia de confiança. “Tá ficando homenzinho já, vai quebrar muito coração.” Ano a ano, ela ia ajudando a formar o seu caráter. “Onde já seu viu, moleque, bater nos coleguinhas?”, “Para de marra, André, pode comer tudo!”, “Deus que me perdoe, gente, olha o estado desse teu quarto! Você não tem vergonha na cara não, menino?”, “Larga mão de ser bagaceira, André!” Logo o menino cresceu barba, começou a se aventurar no amor, e passou para a faculdade. E Sandra sempre lá, vendo seu menino virar homem, sempre esperando-o voltar para casa. André levava-a a todos os ritos de passagem, às formaturas, cerimônias e aniversários. Sandra se arrumava toda, botava sua roupa de sair e ia orgulhosa. Ele dizia que daria os próprios filhos para ela tomar conta, em voto de confiança e carinho, e ela sorria e brincava que já estaria velha de mais, que estaria aposentada. Mal passava pela cabeça de André que ela poderia largar a família. Ele despercebidamente imaginava que ela moraria ali até seus últimos dias. Até que a viu partir por justa causa. Ficou furioso com os pais, que explicaram que não fazia mais sentido mantê-la, já que ela não conseguia mais fazer o trabalho. André achou de uma insensibilidade tamanha demitir a mulher que o havia criado, mas ele sabia que antes de tudo ela era uma empregada. Apenas para ele é que ela era uma protetora, um ninho amparador, um seio de afeto. Prometeu visitá-la, com o coração apertado, porém desde então nunca tivera tempo.

Sentado sozinho agora no banco da igrejinha de Guapimirim, agonizava em remorso. A maioria das pessoas já estava presentes quando ele chegou, de forma que foi direto sentar-se em um dos assentos do fundo. No espaço lotado de gente, André reconheceu os filhos de Sandra. Cumprimentou de longe os dois que ainda trabalhavam na casa de seus pais e acenou discretamente com a cabeça aos outros que mal conhecia. Todos retribuíram com um sinal sóbrio em reconhecimento de sua presença. Sete adultos formados, com suas próprias crias em volta, todos velando a mãe que dividiam com André. A cerimônia durou pouco mais de uma hora e foi seguida do enterro no cemitério, logo ao lado da capela. André sentia-se incoerente àquela cena, o ataúde sendo levado pelos filhos de Sandra até o seu jazigo sob a garoa fina que coincidentemente caía naquele final de tarde. Não conhecia ninguém ali, porém era provavelmente a pessoa com quem a falecida mais havia convivido. Ele não discursou, não viu o corpo de Sandra e não conseguiu chorar. Depositou apenas as flores que trazia consigo sobre o caixão antes de o cobrirem com terra. As pessoas começaram então a dispersar-se, e André sentiu um certo alívio pelo fato da ocasião fúnebre estar chegando ao fim. Nada ali o fazia recordar do espírito de sua babá, tudo era estranho ao seu conhecimento de Sandra. Nunca a ouvira falar sobre sua vida pessoal, contar histórias de seus amigos, detalhes sobre seus filhos. Nunca fora além do limite da existência de sua mãe de criação dentro do qual ele também se encontrava. Estar na presença de todas aquelas pessoas tão estranhas a ele, porém tão queridas à Sandra, o deixava extremamente inquieto por fazê-lo perceber que ele não a conhecia por completo, apenas a parte de sua pessoa que lhe dizia respeito. Novamente o remorso. Ele queria ir embora o quanto antes possível para não prolongar aquele sentimento, que agora, mais do que nunca, parecia irremediável. Iria até os filhos de Sandra despedir-se e volataria logo depois para o Rio, de onde, havia decidido agora, não devia ter saído. Uma cerimônia própria, privada e simbólica, em memória da alma luminosa de sua babá, teria sido o suficiente. Tarde demais. Pois diria adeus aos filhos de Sandra e, com eles, à memória dela. E pronto. Começou a dirigir-se à família quando, botando a mão no bolso das calças, sentiu o pequeno envelope com os quinhentos reais que o pai havia lhe dado para que entregasse ao filho mais velho da babá. Um calor constrangido lhe subiu subitamente pela espinha. Os filhos de Sandra já o haviam percebido indo na direção deles e já se preparavam para o que poderia ser uma incomoda, porém necessária formalidade. André não podia mais voltar, seria estranho demais. Não sabia o que seria pior, ter de entregar o dinheiro comiserado ao filho cuja mãe defunta ele havia reivindicado para si, ou dar meia volta e partir para nunca mais dizer nenhuma palavra a nenhum deles. Mas não poderia fazer isso, os dois que ainda trabalhavam em sua casa estavam também ali e isso causaria um desconforto ainda maior quando ele os encontrasse na segunda-feira – o pai de André os havia dado o resto da semana de folga, ele era bom para eles. Escolheu, pois, a única opção. A ajuda, de qualquer forma, haveria de ser bem vinda, a família ficaria grata pelo auxílio com os custos do dia. Eles sabiam que o pai de André era generoso, tinham agora uma casa de herança por conta dele. André finalmente chegou junto ao grupo, abraçou os filhos de Sandra que conhecia há anos, seguidos, um a um, dos que praticamente via ali pela primeira vez. André se sentia como se seu coração houvesse trocado de lugar com sua consciência, que agora quase explodia em vontade de reconciliar o que não poderia nem sequer ser expressado. Abraçou cada uma das outras quatro filhas de Sandra, simplesmente dizendo que sentia muito. Foi, talvez, o mais honesto que poderia ter sido. Quando parou diante de seu filho mais velho apertou-lhe firmemente a mão e repetiu seus pêsames. Marlon era um homem altíssimo e macérrimo, com a barba por fazer e os olhos em um fundo negrume úmido. Ele agradeceu a presença de André que, puxando-lhe de lado, estendeu as condolências de seus pais à família de Sandra. Nesse momento, já arrependido, André puxou o envelope do bolso e o entregou a Marlon, sem dizer uma palavra, apenas oferecendo os seus pesares monetários. Marlon mirou o envelope e voltou o olhar para os olhos de André. Os dois filhos de Sandra prenderam um ao outro em um olhar onde tudo parecia estar explícito. Um olhar onde toda sua culpa e aquiescência cegava-os. Um olhar de injustiça e necessidade. De omissão e submissão. Marlon buscou o envelope que André suspendia no ar e botou-lhe no bolso. “Obrigado”, disse no mesmo grave tom gutural em que sua mãe murmurava canções. André soltou a respiração, disse que voltaria em breve para visitar o túmulo de Sandra e partiu, caindo em um choro desesperado quando entrou em seu carro. Nunca teve tempo de voltar.

-2016