London on Friday

Caos à tarde
E as pessoas se evitam
E são mais donas da rua que os veículos
E não passam a nada despercebidas
E gritam com suas cervejas escuras nas mãos
E apertam-se juntas para chegar em casa
E ignoram a costumeira chuva
E desafiam a morte sobre as bicicletas
E vestem suas meias coloridas
E leem seus jornais gratuitos
E saboreiam seu acento arrogante
E atravessam os parques vazios
E sentam-se em bancos molhados
E ainda vestem seus ternos
E fumam seus cigarros amassados
E não se importam com a sujeira
E saúdam o final de semana.

Hoje é sexta-feira na maior cidade do mundo
E ninguém dá a mínima.

-2014

aquela noite

Lembras daquela noite que passastes comigo? Quando as paredes do meu quarto eram o limite do universo e que infinito era apenas o nosso amor? Eu tinha você nos meus braços e apertava todas as partes do teu corpo pra poder dizer que eu era dono de alguma coisa, mas não adiantava, eu era teu e teu era tudo o que eu era. Parecia que o Sol nunca nasceria de novo, mas do teu sorriso vinha a única luz de que eu precisava. Debaixo do meu cobertor não havia espaço pra memórias ou planos, apenas pra certeza de que jamais nos sentiríamos sozinhos. Eu punha músicas pra tocar e você fingia que as escutava quando na verdade ficava me olhando cantar, sabendo mais e mais a cada nova melodia que eu era o homem pra você. E você era a mulher a quem eu dedicaria todas as minhas canções. Você me tornava humilde e era na sua simplicidade que eu encontrava a minha extravagante alegria. Era nos teus cabelos que eu encontrava a minha paz, nas tuas mãos, o meu sossego, no teu colo, o meu propósito. Em silêncio, nos prometíamos. Acho que aquela foi a melhor noite da minha vida.

-2014

Epílogo

(I)

Como eu gostaria de conhecer-te agora, pela primeira vez neste instante, do zero e sem preconceitos, para saber se esse amor de hoje é verdadeiro ou viciado.

(II)

Como eu gostaria de conhecer-te agora, de rosto lavado e sorriso sem lembranças, para saber se são só nossas memórias de hoje o que temos em comum.

(III)

Como eu gostaria de conhecer-te agora, de beleza sempre transparente, apenas pra te conhecer pela primeira vez uma última vez.

-2014

Terra

Que terra estranha é essa em que até meus sentimentos são estrangeiros? Em que não falo a língua de meus pensamentos e em que minha própria angústia não me faz sentido? Piso firme em um solo que não entende o meu caminhado, procurando um refúgio onde eu possa descansar sozinho. Tudo é novo e medonho, excitante e desconfortável. Só subo as ladeiras do dia porque à noite sei que exausto irei descê-las. Minhas únicas ladeiras que me fazem sentir saudades de casa. Casa que às vezes até esqueço onde fica. Meu coração então grita perdido no escuro de seu peito. No entanto, para minha sorte começa a chover fino e finalmente me acalmo, pois o cheiro de terra molhada é o mesmo seja ela estranha ou conhecida.

-2014

constante sentimento

No caderninho procuro o texto que outro dia escrevi. Lembro-me, ele emocionava e falava à mais profunda face da alma. Expressava o que mal podia ser compreendido e aliviava o coração da dor de não saber o que sente. Ele consagrava a pequena página e pedia pra ser manifestado. Ele era um texto herói e seus versos salvavam. Mas não acho o textinho.

-2014

Mostarda

A máquina em que escrevo agora não aceita bem minhas ideias. Pra que me obedeça tenho que bater com força em suas teclas senão as palavras não saem dela, como se de quando em quando ela descordasse do que tenho a dizer. Talvez ela ache que ridícula a ideia de estar sendo utilizada para escrever um texto metalinguístico, afinal seu propósito há de ser maios que a expressão de si mesma. Comprei-a em um mercado de pulgas no centro da cidade em um sábado qualquer. Entre as muitas disponíveis ela tinha o menor preço, além da cor mostarda que me chamou a atenção. Gosto muito de mostarda, a cor, apesar de também gostar do condimento. Essa ultima frase custou a sair, acho que minha máquina sente-se ultrajada. Tiro sua tampa superior para ver o mecanismo em ação: suas molas estão à mostra, seus parafusos descobertos, todas as pequenas engrenagens à vista. Vejo sua fita de tinta velha que ainda não troquei, nela a marca de milhares de palavras que não escrevi, de mensagens que não são minhas, destinatários que não conheço. A fita usada que vos escreve agora carrega a soma de histórias, a atemporalidade de diversas cartas de amor, a incomensurável insignificância de relatórios passados. E carrega também agora, aos poucos, sua autodescrição. Pela fita usada percebo que essa máquina na verdade não se importa em falar de si mesma. A dificuldade no datilografar não é relutância sua, mas apenas o reflexo de sua idade. Ela não se importa que eu a faça falar do que eu quero. Ela não se importa em falar de nada, pois essa maquina não é uma dama de ferro, ela é a ferramenta à qualquer um que precise materializar-se, é uma guerreira antiga.

-2013

s.t.

indefectivelmente azul, tudo azul
azul da cor do céu e da cor também do mar
da indescritível cor da dor
da cor da tristeza do homem que tem vergonha
por não dever chorar mas que tem alívio
por saber poder amar e que não para de penar
quando só consegue dizer o belo turquesa
ao invés de sua feia realidade em marinho

-2013

s.t.

Um relógio ao fundo a contar o quanto mais eu deixo de fazer. E mais outro, os dois fora de sintonia. Agora os dois cantam a tragédia: no segundo em que um cala, o outro anuncia.
A casa está vazia e se houvesse silêncio pensaria que a vida parou. Mas há sempre a sinfonia dos ponteiros que nos guia ladeira abaixo.

-2013