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Às vezes eu sinto vontade de deglutir a vida. E digerir o mundo, e engolir o chuveiro do meu apartamento. De numa garfada degustar o amargo e o doce de toda existência, o gosto todo. De numa dentada sentir todo o meu sabor, a força da mandíbula indiferente à fragilidade da carne. De apertar meu cérebro com as palmas das mãos, de entrar nos objetos e invadir a vida dos outros, de ser mesa e ser pássaro. Só que meu desassossego é refém de tudo e tudo me extorque. Fui sequestrado pela realidade.

-2013

cortina

Hoje a chuva acortina a vista do meu quarto e eu fico preso na Terra. Ela acortina também a minha alma, e eu fico preso na minha angústia não dita. E finalmente, antes de fechar minha janela, ela acortina o saber do meu querer e eu fico preso no escuro da minha desesperança.

-2013

prochain arrêt

Não percebi quando o casal entrou. Pararam bem na minha frente e quando olhei lá estavam de costas, apoiados no banco em frente ao meu. Ele tinha o cabelo moreno e curto e usava uma blusa com grandes listras verdes. Ela de vestido castanho, contrastando com o loiro dos longos cabelos que desciam pelos ombros. Num entrelaço de braços os dois se acomodaram e começaram a conversar. Falavam inglês, mas não alto o suficiente pra que eu discernisse o assunto. Só via as suas costas, mas eu sabia que o que ela dizia era sério. Discursava olhando a parede do vagão, mirando fixamente o aviso que proibia o fumo e a agressão física e verbal contra os fiscais do transporte. Não piscava, mas também não lia o que estava escrito, porque toda a sua concentração ia para o recado que agora dava ao homem, o recado mais importante da vida. Recado que dele recebia a mesma desatenção que a advertência sobre o fumo e os fiscais. Ele também estava concentrado, mas no rosto que não o fitava. Analisava cada curva, cada músculo em ação, cada poro magnífico. Num pequeno momento do dia, os dois esqueceram de si mesmos e existiam apenas um pelo outro. Os corpos já colados se apertaram ainda mais quando o vagão do metro encheu após ter parado na estação da rodoviária. Encheu mas continuava vazio. No descuido de um beijo o olho dela apareceu de relance, mas o êxtase foi momentâneo pois logo depois virou-se novamente. A barba era suja e a alça do sutiã lhe apertava demais, mas aquele era o casal mais incrível do mundo. Quando o sistema de som anunciou a próxima parada, para a minha desgraça, era a deles. Tentei fechar os olhos mas a tragédia não me deixou! Os dois viraram. De relance olharam pra mim, como se eu fosse uma outra placa de advertência sobre fumo e fiscais. Eles não eram mais interessantes. Não se amavam mais, não eram mais um casal, não eram mais nada. Eram um homem de barba e uma mulher de cabelos loiros que por um instante foram tudo pra mim.

-2013

não há palavras

As palavras estão por todos os lugares. São exibidas. Estão no silêncio do lago, de água verde e misteriosa. Estão no píer imóvel e solitário, que à noite não serve ninguém. Estão no cheiro do gim carregado pela brisa da noite. Estão nos ruídos dos jovens ao longe que acreditam existir sozinhos. Estão no cisne que desliza à margem, enroscado na própria melancolia. “Escreva-me! Escreva-me” – grita o cisne. Estão nas boias que não desistem na batalha da física, e nos barcos que dançam por obrigação amarrados uns aos outros na marola da madrugada. E em seus longos mastros, que junto das velas recolhidas formam ângulos no céu sem estrelas. Ângulos que me fazem tão, tão triste. Choro pelos ângulos, e até em minhas lágrimas estão as palavras. Citando a ardência do rosto, a permeabilidade da pele, a hidrodinâmica da gota. Tantas palavras pra tudo mas nenhuma pra mim. Sou como um dicionário que acha definição para tudo, mas que ao querer dar razão a si mesmo não encontra nada além da irônica e inútil metalinguagem.

-2013

Ela

Ela toca (e pega) fogo!
Intocável, insuperável, inalcançável e irreal também.
Delatora da arrogância alheia, cega à própria intransigência. Declara aos berros as suas certezas certamente mais certas que as da plateia que a ouve. Nem se dá conta de que fala sozinha, de que a verdadeira virtude é saber escutar. Sabe tudo e não sabe que nada sabe, que ninguém sabe nada, que sempre nunca se sabe mais e mais. Acha que soube agora tudo que há pra se saber. Hermética, um tanque de guerra de escotilha fechada pronto para botar abaixo toda e qualquer muralha a frente, mesmo que esta não esteja em seu caminho. Nada mais pode ficar de pé além da Verdade de v maiúsculo, a que diz que todos, menos os do contra, merecem ser ouvidos. E vai, a mil, como um ônibus que mal se prende ao chassi, carregando todo o passageiro companheiro, sabendo que chegará sã ao destino cada vez mais próximo. Sábia, sábia ela, que por não aceitar o assento em outro lugar, nunca vê, logo ali, o sabiá.

-2013

algo sobre tempo

Choveu forte em minha vida. Choveu forte a vida inteira. Às vezes, ventava também. Fazia frio também, às vezes. Mas chovia o tempo inteiro. Ainda chove. Quem sou eu para falar do tempo? Não há rugas em minha cara. Não há fios brancos em meus cabelos. Não há legados para minha existência nem netos para meus pais. Não há história para meu nome, não há honra para meus textos. Não há glória, não há paz. Não há experiência para meus medos, não há conforto para minhas angústias. Há de haver? Sou virgem de tempo; para mim, há de sobra. Enquanto outros possuem só a sobra dele. A primavera que Florbela cantou assim florida ainda não despontou em minha vida. Agora somente chove e venta e faz frio no inverno de uma espera. Onde foi parar meu tempo? Será que ele algum dia existiu? Será que ele algum dia retornará? Numa das manhãs de minha velhice, quando não houver sonhado, levantarei de um travesseiro limpo uma face cheia de pregas e me olharei então no espelho de uma casa que não é minha. Eu não tinha este rosto de hoje, Cecília, assim calmo, assim triste, assim magro. Em qual dos outros espelhos da vida ficou perdida minha face? Ficou perdida minha fúria, minha alegria e meu vigor? Em que espelho fiquei perdido eu mesmo? O incomensurável tempo vai de segunda a domingo e cabe na moldura de um reflexo apressado, que logo reflete algo novo. E que logo esquece como eu me parecia. Na segunda, o tempo passa pro moço no ônibus, que leva seu filho num carrinho e que o olha perplexo, com orgulho e ciúmes. Que vale dele as próprias causas e que espera os êxitos pra si não mais possíveis. Que deixou de ser homem pra tornar-se herói. Na terça, o tempo passa para as árvores, de cujos galhos são arrancadas as folhas secas que pagam respeito à federação do tronco até o instante da queda na batalha do outono. Umas envelhecem laranja incendiadas, outras num rubro doente, e algumas até num violeta desavergonhado. Mas o fim vem pra todas, independentemente do quão verde um dia foram. Na quarta, o tempo passa para o relógio que não controla os ponteiros. Carregam sozinhos a pesada soma dos dias no total das semanas e o produto dos meses na potência dos anos. Vai ligeiro na frente o dos minutos e atrás, retardatário e cruel, o caçula das horas. Na quinta, tira-se o relógio da parede, mas os ponteiros de um outro continuam rodando sem prestar atenção em mim. Que se quebrem todos os relógios do mundo para que nunca novamente saibamos quando sorrir e quando chorar! Na sexta, o tempo passa para o menino, que, em algum momento dos últimos segundos, tornou-se gente grande e deixou a doçura da infância pra nunca mais parar de amargar o sabor acre da madureza. No sábado, o tempo não passa para ninguém. No domingo, o tempo passa pra mim que mal o percebo passar. Dane-se minha idade! Vivi tempo suficiente apenas pra saber que preciso viver mais. Mas o tempo escorre por meus dedos e faz questão de se sentir escorrer. Faz questão de encurtar a alvorada de minha noite, Florbela! Tome tempo!, um pouco de realidade Espanca. Que da ilusão de seus ponteiros ninguém se ilude mais. Ninguém aguenta mais se iludir.

E que termine meu dia num crepúsculo atemporal.
Que para o tempo me saiba ceder… Para se eternizar…

-2013