s.t.

Adoro saber estar sendo olhado por alguém que não saiba que disso sei. Melhor ainda é quando quem olha é um desconhecido. Podemos então causar a primeira impressão que quisermos. Posso ser um lunático que vagueia sozinho, um galã da vida real ou um artista perturbado que senta no último banco do ônibus. Pouco importa, porque aquele você vai embora assim que quem olha pisca. O problema é quando se quer ser aquela primeira impressão pra sempre, quando ela tem importância. Aí quem tem que se olhar sou eu mesmo, e dessa vez sem que eu saiba. Mas não há motivo pra alarme, porque há sempre uma primeira chance de causar uma segunda impressão.

-2013

Sobre o natural

Naquela tarde de que nunca me lembraria, deitei na grama alheia. Estendi o lençol sobre o tapete da floresta, bem em cima das plantinhas cujo nome não me lembro. Pousei o corpo lentamente sobre a toalha e senti o meu peso maltratar a natureza. Enquanto o chão moldava a minha silhueta, me sentia observado. Sentia os habitantes locais percebendo a minha presença, desconfiados do corpo estranho que aparecera sobrenaturalmente. Eu era evitado, tudo acontecia em torno de mim, sem que eu participasse. Mas com o passar dos minutos e o transcorrer do sol, eu passei também a ser parte da natureza, simples unidade da vida no jardim. Os besouros, as abelhas, as formigas, as libélulas, agora ninguém mas parecia me perceber, eu era apenas um tronco contra o qual um alguém distraído voava dez vez em quando. Nunca foi tão bom ser ignorado. O estranho virara comum, o antigo se adaptou ao novo, talvez até sem perceber, mas se adaptou rapidamente. E eu fui o único que senti a mudança. É incrível – pensei naquela tarde – como nós somos a única parte da fauna que não nos adaptamos ao novo, digo ao verdadeiramente novo, ao sobrenatural. Não estamos no topo da cadeia, mas sim dentro dela, tacanhos. Cada dia que passa nos tornamos mais e mais parte dela, me sinto apenas mais uma barra nas grades da cela. Somos penitenciários do pudor, sentimento que só nós, animais humanos, sentimos. Uma girafa nunca se sentiu envergonhada, o porco nunca ficou sem graça. E muito menos os insetos do jardim tiveram o rosto em rubor porque sem querer esbarraram em mim. É bem verdade que não pediram desculpas, mas quem tem tempo pra desculpas quando se há por todos os lados flores a polinizar. Passei a tarde inteira naquela grama, lisonjeado pelo flerte dos insetos, com ciúmes apenas das margaridas, a quem eles davam mais atenção.

-2013

Dama no armário

Se escrevo tenho que buscar a máquina no fundo esquecido do armário, o peso sempre maior que o da memória. Apoio-a numa mesa que não mais a recebe como antes, não é mais tão bem-vinda. Ficam fora de contexto as partes descomunais, o tamanho grita excesso e a máquina, que teve sempre sua glória, fica um pouco envergonhada. Mas não perde a majestade. Funciona à eletricidade e por isso enquanto não é datilografada, faz um ruído de reclame: “Cadê? Não vem nada?”. Manifestam-se umas teclas e outras letras, mas logo predomina de novo o silêncio maquinário, todas as peças já cientes do fracasso. Fica ali, velha e importante, rainha de outros textos, barulhando na mesma busca minha. Minha máquina suplica e eu não posso ajudar. Admito a decepção e finalmente a máquina volta pro armário, no canto óbvio de que sempre se esquece, juntando poeira e amargura, minha única dama de ferro.

-2013

Suspiro

Não sei quem sou. Não sou herói. Não sou gente grande. Não sou bem formado. Não sou educado. Não sou poeta. Não sou mascarado. Não sou magistrado. Não sou ministro. Não sou presidente. Não sou competente. Não sou indulgente. Não sou gente também não. Não sou pouca coisa. Nem muita coisa também. Também pode ser negativo? Não sou de ter dúvida. Me contradigo. Sou de ter dúvida. Não sou professor. Não sou certo. Não sou errado. Não sou seco nem molhado. Não sou quente nem frio. Não sou pouca esperança pra coitado qualquer. Não sou o projeto de um grande homem. Não sou um prospecto. Não sou uma mera visão. Não é comigo que se ganha teu pão. Não sou cavalheiro. Não sou escritor. Escrevo de sacana, de gozação ao senhor. Não m’ofereça a hóstia, porqu’a mastigarei. Não me ofereça. Não reze a prece comigo. Não sou orador. Não me dê o castigo. Não me mostre pudor. Fique bem sem vergonha. Não gosto de ninguém. Não me faça de mestre. Não me faça de obediente. Me livre os dedos. Me livre as mãos. Me cegue os olhos. Me entorpeça a consciência. Me venere. Me obedeça. Me ordene. Me mostre o caminho. Me responda a pergunta. Me fale o que eu quero ouvir. Não escreva, não quero ler, fale, que é melhor. Não me cale o medo, deixe que me engula. Não tenho cura. Não me cure venha a acha-la, que eu temo a sanidade. Me ache jogado e me deixe no chão. Me jogue no poço e o feche com gosto. Não me conte mentira nenhuma. Me minta só se for sobre o tempo. Não me faça mais nada. Me trate de bem. Me ame descarada, que eu também já não tenho mais cara nenhuma. Me caíram as máscaras e as más caras, que caiam as tuas também. Desmascare a coitada. E se acabarem as máscaras, que cubram o rosto com a mão. E se tiverem angústia, cubram com o coração. E se estiverem com ânsia, cubram c’uma paixão. E se estiverem com raiva, cubram com um vilão. E se estiverem pelados, cubram com um calção. Farei limonadas! Mas agora chupo só o limão. E estou no bagaço. E como a casca. E engulo as unhas. E digiro os dedos. E mastigo os punhos. E percebo que já comi-me os braços inteiros. Me ame! Me ame alto e sem caráter. Não recite tua paixão, só a grite para mim. Afinada, de preferência, que já estou velho para qualidade pouca. Não se importe comigo. Me deixe num canto. Me deixe quietinho. Não me faça carinho. Me deixe sofrer. Me deixe passar frio. Não quero teu corpo. Me deixe com fome. Não me peça socorros. Não posso ajudar, o máximo que consigo é deixar ser ajudado. Não alegue egoísmo. Não proclame loucura. Não se desespere, você não me perdeu. Também nunca me ganhou. Sou assim, desgrenhado, desprendido, desacertado, desiludido, descentralizado, excomungado de nascença. Batizaram minha testa, não sou má influência. Minha fluência que é má. Me ensine teu idioma, que o meu já não me deixa em paz. Me persegue e atormenta. Me maltrata. Me amordaça. Quanto mais o domino, mas dominado por ele fico. Não me ponha uma máquina na frente. Não sei o que sou capaz de fazer. Não me leia esta merda, foi somente um suspiro meu. Suspire você também. Bem aqui, no meu pescoço. Suspire firme e quente, suspire toda a tristeza e vontade que guarda dentro de si. Suspire as mágoas, as invejas, os sonhos. Suspire aquilo que lhe faz acreditar não ser humano. Suspire o monstro. Suspire aquilo e só aquilo que suspira na cama, no escuro, sozinho e afogado. Suspire o que não suspiraria nem a si mesmo. Suspire o insuspirável. Suspire tudo. Somente então me acalmarei. Somente então me poderá chamar de louco. Porque somente então saberei não só a minha loucura, mas também a loucura dos outros. Somente então saberei ser feliz e infinito. Somente então me poderá tirar do canto, me levantará do chão e me tirará o limão da boca. E então, meu amado, faça comigo e de mim o que bem entender…

-2013

A vez do poeminha

Reivindica aqui, o poeminha,
O que nunca lhe foi dado.
Evite, leitor, despercebido por ele
Passar direto ao poema do lado.

Perceba o poeminha!
Não recite por pena o coitado.
Tem como todos os outros sua página própria,
Não merece ser desprezado.

Não despreze o poeminha, leitor,
Quem o lê interpreta:
Faz também jus a mim.

Ora! Atenta até à rima,
O pobrezinho do poema,
E faz questão de ter começo, meio e fim.

-2013

espelhos

espelho primeiro

Como é a minha traqueia?
Como são meus lábios, minhas bochechas e minhas sobrancelhas?
Nunca vi meu rosto!
Minha face é um mistério pra mim mesmo.
Conheço apenas aquela refletida no espelho.
Espelho mentiroso, pois aquilo que me mostra não é o que vejo quando olho para baixo.
Meus olhos, nunca os vi. De que cor são?
Não tenho nenhuma memória de qualquer expressão.

Quisera eu ser espelho,
Para por pelo menos um instante saber
Quem realmente sou:
Ainda não mero reflexo,
Apenas luz incidente.

espelho segundo

Quem sou eu?

Luz incidente
indecente
indecisa
não contente
refratada

Eu sou luz refratária…

espelho terceiro

oriecret ohlepse

-2012

estro

Onde foi parar minha produção?

Produzia a mim
Produzia a ti
Produzia a ele
Produzia a nós
Produzia a voz

Onde foi calar minha voz,
Produzida a eles?

Minha obra se perdeu no atropelo de labuta meã.
Minha obra se venceu do cólera de poesia terçã.

-2012

metrô

Nem todos os mais velhos conseguiram sentar-se, de maneira que alguns ainda tinham que ir em pé, cambaleando entro um solavanco e outro. Tantos eram os passageiros que não era mais preciso apoiar-se em nenhum lugar, ia-se espremido entre estranhos. Todos formavam uma só massa, que dentro do veículo-lata tomava forma viva, indestrutível. No fenômeno do lotado ignoram-se as convenções. Os costumes são todos deixados à porta, como guarda-chuvas deixados na entrada do seco para serem pegos de volta na saída, quando recobram sua utilidade. O único orgulho guardado é o do silêncio, que entre estranhos continua sempre o código comum de conduta. Não se conhece aquele no qual se encosta, o outro cujo rosto encosta no seu, as mãos estranhas que se esbarram constantemente. Se conhece apenas uma identidade, uma conformação pública de quem não reclama, de quem aceita o embaraço como parte do trajeto. E entre uma estação e outra saem alguns conformados e entram mais outros. Lentamente cada um encontra seu aperto, invadindo e tendo invadida toda e qualquer privacidade, mas evitando o olhar. O contato é presente em todas as formas, menos pelos olhos, iguais às putas, só que vestidas. Uma troca de olhares seria muito íntima e qualquer pudor que até então havia sendo evitado pelo senso de comunidade seria trazido à tona, arruinando a vida de todos. Por isso casa um cumpria seu dever e pelo bem do organismo olhavam para qualquer canto que fosse – as luzes fosforescentes, os mapas coloridos dos trajetos, o desenho dos postes de apoio no teto.
Num momento infeliz de pura má sorte dois trens atrasaram na partida de uma estação, fazendo com que os outros dois subsequentes que vinham atrás tivessem que parar, quebrando toda a sinfonia de máquina, no meio do escuro de um túnel, paralelos um ao outro, o início de um junto ao final do outro, ambos cheios de gente. O solavanco maior que os de costumes alardeou os passageiros que tomados de assalto deixaram o transe. Por descuido, distraídos de todas as normas, todos olharam para a tentação ao lado. Num instante de magnificência, dezenas de centenas de olhares foram trocados. De par em par, os passageiros dos dois trens encontraram um alguém com sua visão e a ilusão de muito tempo perdeu o sentido. O ar se encheu com o cheiro do terror e o silêncio que antes era de complacência era agora de pânico. Pânico não pelo parar do trem ao qual todos estavam acostumados, aquilo era frequente – era um questão de tempo até que voltasse a andar. O pavor se manifestando agora vinha junto da epifania coletiva, da realização do macabro. Todos perceberam que na verdade não eram passageiros de uma linha de transporte, mas sim gente dentro de metal em um túnel cavado debaixo da terra. E o metal, o túnel, e sua própria presença naquela mesma situação eram todos efeitos de sua deliberação. O que faziam ali, perguntavam-se uns aos outros com o olhar. Centenas de animais sem poder algum sobre o próprio destino, paralíticos com a familiar estampa do medo na cara, enterrados sob sua civilização. Em meio ao choque e ao desespero calado, a única coisa que tinham era a si mesmos. Na verdade nem isso: todos olhavam para alguém no vagão oposto e duas janelas separavam o abismo da solidão em que todos se encontravam do conforto de um último abraço entre irmãos. Alguns derrubaram lágrimas, outros perdiam a consciência, mas o silêncio era constante. O silêncio do incompreensível, do arrependimento, da impotência, da insignificância, do incrível, o silêncio dos inocentes e o dos culpados também. Não foi possível perceber o quão rápido tudo acontecera, o silêncio logo foi quebrado pelo barulho dos trilhos. Lentamente quebraram-se os laços e qualquer maravilha for ofuscada pelo movimento da máquina. Os passageiros logo acharam outro ponto para olhar e os dois trens seguiram, debaixo da terra, cheios de gente, cada qual para seu respectivo ponto final.

-2012

Como uma onda no mar

Quando volto à metade de algo que já teve fim me pergunto, por que começa? Quando ouvi pela primeira vez Lulu Santos dizendo que nada do que havia sido seria de novo do jeito em que um dia fora desliguei o rádio de onde saía aquela vil profecia. Dizia que a música era pobre de letra e enjoativa de melodia. A partir de então nunca fui muito com a cara de Lulu, cuja música ecoava em minha cabeça toda vez que algo – ou alguém – importante para mim parecia começar a ser levado pela correnteza, como uma onda no mar. O que não me ocorrera então era que nascido Luiz Maurício Pragana dos Santos, no Rio de Janeiro, como eu, Lulu era apenas mais um homem tentando expressar o que sentia e tinha certeza que outros sentiam também.  Lulu nasceu humano, fato que lhe facultou, entre outras coisas a introspecção, a consciência e a linguagem. Por isso, Lulu pôde interagir, não apenas com outros Pragana dos Santos, mas com qualquer um que encontrou seu caminho. Nesses com quem se deparou durante sua existência estão os relacionados de sangue e alcunha, mas mais particularmente os de carinho e afeição. Lulu teve amigos, teve amantes. Lulu riu à falta de ar, odiou a raiva que lhe consumia o espírito e energia, apanhou dos ciúmes que lhe amargaram o coração, confiou como herói sem contrato, amou transcendente quem lhe fez capaz de emoção, não lhe importava qual. Lulu foi pessoa por que teve de sê-lo. Não se sabe se preferia ter vindo à Terra vaca. Talvez preferisse ruminar grama ao invés dos diversos sentimentos aos quais foi servido. Todos os sentimentos dos quais é senhor e escravo, é descanso e desejo, e que, pela mais traiçoeira das pirraças da vida, passam. Quer os odeie, quer os ame, quer junto a eles ser constante, sua onda estoura e uma espuma nostálgica se arrasta pela praia. Lulu nunca quis me magoar. Ele era apenas o aviso da espécie que dizia que por mais ricos de sensações que todos somos, nunca seremos de novo do jeito que já fomos um dia. Lulu era gente que, como eu e você, queria boiar pra sempre na crista da onda, mas que acabou levando um caldo do mar.

-2012