do amoroso lençol

Enquanto ele respirava o rosto dela subia e descia com a oscilação do peito largo em que deitava. Aquele leito bruto era o descanso mais seguro que poderia encontrar em todo mundo. Aquela pele quente, aquele cheiro conhecido. Seus longos cabelos negros escoriam pelo ombro forte dele, seus braços descansavam na cintura morena enquanto as mãos femininas se arrastavam pelo abdômen que sorria, as quatro pernas enroscadas entre si, as intimidades se espiando. Ela sabia que se dali nunca mais saísse seria feliz para sempre. Isso seria possível. Ela se nutriria da áspera tez dourada, se sustentaria da respiração descansada tão característica que ele tinha, se agarraria naquele tronco sossegado de carinho e amaria eternamente o homem que a fez mulher como nunca o foi. Disso ele sabia também. Sabia que aquela era sua única aquela que poderia lhe fazer satisfeito. Sua sede de tudo na vida adormecia nos seios sinceros daquela mulher. Ele olhava para os seus olhos cor e cheiro de castanhas. Fitava o nariz desajeitado, lar da pintinha escura pela qual se apaixonara. Mirava a boca em que se perdia e suplicava nunca mais se achar. Desejava-lhe de corpo, de alma, e de mais do que todo o possível  resto. Amavam-se juntos, depois um ao outro e por fim a si mesmos.

Eles continuaram os dois na inércia da cama sem respirar. Até que ficaram sem fôlego, e nada nunca mais foi o mesmo.

-2012

Borboleta

Amizade nasceu do casulo do amor,
Da afronta da dor, da esperança do abril,
De botar nas palavras a paixão tão febril,
Que por si mesma sente.

Entende-se inteira,
Não acha ligeira,
A própria existência.

Não colhe ilusão,
Joga ao coração,
Angústia alheia.

Encara o desgosto,
Traz firme no rosto,
Magoada coragem.

E carrega gentil, em constância viril,
A riqueza do afeto, do carinho direto,
Escondidos em cada lagarta.

-2012

sem palavras

Sinto que as palavras me traem. Só me vêm as baratas e oferecidas, que vadiam os cantos óbvios da criatividade. As afoitas de antes já não me visitam mais. As palavras me traem, mas traí-as primeiro. Consome, o amor por essas coisinhas. Te requer de inteiro, é carente de dedicação e compromisso. Tem de se ser delas pra que elas tuas sejam também. Tem de se falar por elas, ser pra sempre a expressão do escrito. E querer sê-lo mais do que qualquer outra necessidade. É difícil, mas me satisfaz.  Me faz também, me salva também, muitas vezes. Peço o perdão das palavras, que não só me eternizam, mas também me colorem o mundo e perpetuam tudo que há dentro dele.

-2012

O prefácio das laranjas

No pátio da infância erguia-se uma laranjeira infinita. Dava sempre de boa vontade os frutos grandes que só se deixavam segurar com as duas mãos. Nem fazia questão que lhe subissem o tronco para arrancá-los: era partidária da não violência e simplesmente os deixava cair no solo. Viam aos montes, de modo que se não se prestasse atenção escureciam rapidamente e perdiam o sabor e a suculência. Não fazia mal, a planta não se incomodava de ter o esforço desperdiçado.  O importante era o suco de suas crianças. Dava também sombra em abundância. A grande mancha negra que lhe nascia pela manhã à esquerda a rodeava conforme passava o dia, como um siamês vigilante debruçado sobre a grama. Morria junto com o sol, alongada na outra extremidade do terreno, deixando mais uma vez a irmã solitária na penumbra das seis. Os ventos loucos do interior começavam então a soprar-lhe as incontáveis folhas, que gritavam alucinadas num caos frenético até o cair total da escuridão. Conseguia finalmente descansar os galhos violentados no sossego dos grilos cantantes, instigados pela coaxa das rãs, até que vinha mais uma manhã, quando começavam de novo os meninos a trepar-lhe a estrutura. Estava enraizada numa parte mais alta do quintal e viera à família com o terreno. Não se fazia ideia de sua idade, mas seu espírito era incansável. Laranjada após laranjada viu os noivos recém-casados se mudarem e começarem família, viu suas quatro meninas, uma a uma, nascerem e crescerem, as viu deixando a casa, retornando com sua própria prole. Viu surgir no correr de algumas gerações um emaranhado de parentes, de pais e sobrinhos, de sogras e cunhados, de tios e genros, de primos de intermináveis graus, todos seus afilhados. Viu plantarem afeto, colherem desavenças. Estava presente nas brigas, nas paixões. Presenciou todas as festas, entediava-se também aos domingos. Recebeu primeiro o patrono da estirpe quando ainda era jovem. Já era grandiosa na época, mas seu jardim era baldio. O moço tinha uns olhos azuis bondosos que pareciam cansados, mas que exibiam também um brilho tímido que as laranjas adivinharam ter por causa do matrimônio recente com a jovem que vinha ao seu lado. Ele pousou a palma da mão em seu caule largo e fechou os olhos pra acolher dali em diante o seu novo destino. A árvore fez o mesmo e foi pra sempre feliz. Anos depois houve uma tarde em que o sol estava em seu pino máximo, cegando a todos em pleno verão gaúcho. Passava pouco do meio-dia e como em todos os outros dias de verão quente a família se escondia na sombra fresca da casa em um meio sono depois de almoçar polenta e guisado. Como em um serpentário de jiboias bem alimentadas, todos descansavam ainda com o gosto da farinha de milho na boca. Estavam de férias. No pátio se estendia também como gente a cadela centenária, à qual faltavam quase todos os dentes, mas ainda eram pretos todos os pelos. Roncava alto perto do roseiral donde brotavam, apesar do janeiro abrasador do Rio Grande, as mais belas rosas da cidade, vermelhas de sangue em sua maioria, mas brancas em alguns poucos espaços, essas ainda maiores que as outras, como que para guardar o segredo da indecência rubra. Logo ali existia um parreiral que fora sempre cultivado pela jovem mulher do moço de olhos azuis, agora já uma anciã dona de diversas rugas, debaixo das quais, no entanto, exibia ainda o mesmo semblante forte de antigamente. Suas uvas verdes por natureza davam sempre impressão de pouco maduras, até que seu gosto gelado provava aos que se atreviam a brigar por elas com as abelhas que de fato as aparências enganam. Atrás, uma piscina modesta que na imaginação oceânica dos meninos virava mar. Ainda existia um pequeno terraço onde se subia por uma escadinha erguida ao lado da pequena horta e onde se estendiam roupas e sonhos, ambos tendo que dividir espaço com a antena monstruosa de televisão que com o tempo passou a servir para nada, mas que dali ninguém nunca tirou. Dali as crianças pulavam para o telhado da casa, laranja árido da mesma cor dos tijolos. No meio das telhas equilibravam-se três ou quatro chaminés que liberavam no inverno do Sul a fumaça do calor das lareiras. A parte em frente à casa era, como na maioria das residências do estado, um jardim de fachada, feito para os passantes, aos quais eram exibidos os mais bem cuidados arbustos, as mais coloridas violas tricolor, e as mais abundantes genistras, todas numa vitrine verde de paz e boa vizinhança. Ali as mulheres sentavam às tardes, de cuia cheia até a boca de erva mate e curiosidade absoluta para a vida dos outros. Na parte de trás da casa, onde tudo de fato ocorria, para delimitar a divisão entre grama e pedra, foi construída pelo próprio dono uma mureta de contenção, por que a terra de onde saiam as raízes da laranjeira vinha em nível mais alto, e o homem sentiu que não seria capaz de arrancar do solo o ser com o qual fizera um voto eterno de felicidade. Aquele murinho acabou virando palco de muitos espetáculos, onde as crianças interpretavam comédias e sofriam acidentes. Quase caindo também de cima do muro estava a laranjeira, que na tarde de que quase esqueci que estávamos falando descansava como o resto de sua família. De manhã haviam se pendurado em seus galhos e espremido os frutos da queda, haviam brincado em sua sombra e se apoiado em sua fortaleza. Haviam admirado suas folhas verdes máximas, seu tronco de cascas secas salientes, seu esplendor de vegetal maciço. Haviam como sempre na vida a usado de instrumento de regozijo. Ela não se incomodava, era esse o seu destino, seu alento, e também seu prazer. Gozava das risadas de suas crias, das conquistas de seus filhotes, da esperança de seus companheiros. Disfarçada na natureza do quintal plantou no cerne daquela família uma semente que germinou laços. Serviu a todos como se fosse a única coisa que soubesse fazer. A única coisa que soubesse fazer de melhor. E quando não servia mais pra nada, serviu de lenha pro calor da fumaça das três ou quatro chaminés do telhado laranja. Então até o final da fogueira e para o resto de sua vida protegeu seus meninos do frio.

-2012

Que é pro mundo ficar Odara

Num domingo público, Marcos sentou num banco chuvoso da General Osório. A praça estava vazia, eram Marcos, uns poucos mendigos e umas pombas gordas. Ele desenterrou um cigarro do decote e o acendeu com um dos fósforos da caixinha que trazia na minúscula bolsa dourada. Mal chagara às cinco da manhã, e já não era mais Odara. Odara havia ficado na noite, onde ele sempre a encontrava, deleitada no direito da imaginação, desnorteando a realidade. Agora restavam-lhe apenas o forte batom borrado que lhe irritava os lábios, a vulgar meia-calça rasgada há tempos, um orgulho pouco e o gênero que carregara a vida inteira. Marcos já sacava o segundo cigarro quando percebeu uma mulher indo trabalhar. Levava uma sobrinha e uma mochila pendurada nas costas. Vestia roupas simples, e apesar dos culotes salientes e dos seios pequenos era uma moça bonita, de cabelos fartos e feminilidade importante. Marcos pousara sem perceber as corajosas mãos nos peitos caros. Brotou-lhe então dos olhos desbotados, que ainda fitavam a moça, uma lágrima carente. Uma pétala de vontade que exibia aos pedintes e aos pássaros um estranho evidente, um desorganizado sentado na garoa de Ipanema que havia sempre na vida procurado a ausência do poder que lhe era justamente muito presente. Quando a menina sumiu numa esquina, Marcos enxugou como um homem a gota do rosto maquiado, empréstimo de Odara, e se levantou do banco, acendendo por fim o terceiro cigarro. Bruta flor do querer, de expediente terminado,  foi pra casa cambaleando sobre os saltos finos.

-2012

 

esboço positivo

Não há remédio àqueles que sofrem da peste da angustia crônica. Da incerteza esporádica, da aflição companheira. A das visitas ocasionais, nas quais entra sem bater e senta gorda ao coração com um sorriso arrogante na cara. Sorriso de quem sabe ter submissos a si nós, os angustiados. Quando se nasce assim acostuma-se com o tempo. A indecisão vira um vício, uma mania ociosa. O sintoma é um só: o questionamento. De tudo. E sem ter como objetivo obter uma resposta. É essa falta de rumo que nos assombra. Minto; não falta de rumo, mas o excesso deles. Aí se enobrece o desespero. Todos os cálculos que antecedem uma decisão tentando antecipar as suas conseqüências, todo o esforço para evitar o arrependimento (porque para os que nesse caem, coitados, não há saída) e ainda de novo a dúvida entre continuar no infortúnio medíocre ou se arriscar na tentativa de uma guinada rumo à ventura. Ah!, a guinada. Vestida na pele de cordeiro, na qual tantos se perdem. Olha aí outro medo. É a romaria nossa, acostumados ao penar da sensação. Aos quais o violento sopro da realidade bate mais gélido. A quem de supetão a vida exibe, sem juízo nem precedente, as consistentes tetas, às quais não se tem reação e fica se pensando no que fazer. Há quem diga “as agarre!”. Eu diria também. Viveríamos num bacanal caótico, “sem guerra e sem glória”, animais felizes, como Deus criou. Mas o que o humano uniu, o homem não separa. E assim se segue, procurando algo ou alguém temporário que aquiete o espírito em meio a essa moral de rebanho, onde morrem e nascem os trabalhadores, os artistas e as putas.

-2012

melancolia cor de rosa

À avó que chamávamos de Îde.

“Aqui jazo, jovem”, me declara a nostalgia. À ela cheira a casa que há pouco foi apresentada também ao hálito tétrico de um adeus definitivo. Soa lúgubre, mas essa não é a intenção. Na realidade a atmosfera da casa que é agora órfã da matriarca é repleta por uma melancolia cor de rosa. “Um jeito romântico de ficar triste”. Como o sossego que sucede uma chuva forte e deixa no ar o aroma de terra molhada e do sigilo de uma família que se encontra numa magoada poça de alívio. Ou ainda o silêncio que precede a tempestade silenciosa de neve que atapeta as calçadas e sufoca nossas angústias.  Da doença antiga resultara apenas um sopro de vida e a previsão de um fim cedo do qual todos estavam avisados. Agora ficamos perdidos em fotografias de há uma infância atrás, achando sussurros de memórias passadas. Encontrando inusitadamente elementos que o tempo consumiu e cuja falta faz o mundo parecer um lugar mais alheio e menos original: Os verões campestres a cavalo, a criatividade inocente e marginal, o valor dado ao simples, a apreciação do ócio, os acasos que reuniam quem hoje não encontra reconciliação. A inexistência de dores de cabeça, a inércia emocional, a ignorância espontânea. Lembranças que me fazem desconsiderar o agora, e similares as quais outras terei quando for adulto e me lembrar da época distante que vivo atualmente. Nesse carrossel da nossa existência, presos numa nostalgia cíclica, choramos presentemente insatisfeitos as lágrimas da vida. Talvez o princípio seja de fato a melhor fase dela por não haver antes nada do que possamos nos lembrar. Durante o seu decorrer perdemos alguns, ganhamos outros, permanece apenas o espírito da família que há muitos anos atrás foi criada por quem hoje é velho e carrega nas rugas o nascimento dos filhos, a infância dos netos, o desprazer dos cônjuges. Os sofrimentos da estirpe, os seus próprios e os pêsames da aliança que proveio do esposo um velho feliz, dono hoje da saudosa noção de que a vida segue e tem de ser seguida.

-2011

Agouê

É na tempestade que a natureza vê a oportunidade de mostrar toda a sua magnitude, seu poder. A incontestável beleza já tem ela afirmada todos os dias, ainda mais pelos cariocas. Tão freqüente são os episódios de deslumbre dos cidadãos do Rio, que tal beleza já chega ao ponto de ser chamada de banal e de não ser mais notada como deveria. Mas a tempestade é diferente. Por ser rara (falo das grandes, como a de hoje) chama sempre a atenção e gera, pelo menos em mim, os mais diversos sentimentos – fascinação, medo, liberdade, opressão. E paralela a tudo isso está sempre a presente epifania de que, na verdade, não somos nada em comparação com as forças naturais do planeta; de que essas poderiam, se quisessem, nos criar danos exacerbadamente maiores do que aqueles que causamos. Entendo todos esses trovões que assombram hoje a cidade maravilhosa como um ensurdecedor “cala boca” à arrogância e à prepotência já crescentes do homem. É, de fato, como uma relação entre um filho mimado e uma mãe carinhosa, que agrada mas que repreende quando necessário. E é, já, necessário.

Cigana sorrindo

Da cor dos dentes cuja boca traga a fumaça
Brilha a Lua
Sorriso amarelo que prende e seduz
Sorriso cigano, oblíquo e dissimulado
Numa circunferência perfeita
Ilumina mais uma noite morna de um junho carioca
Aquece mais uma noite de falso inverno
E abrem-se e fecham-se as cortinas das núvens
Plúmbeas e densas
Ofuscando e revelando Sua luz branca
Aquela que engana
Sombreia de leve

De leve encanta

-2010

A agonia do hoje

O dia da agonia é todo o dia. É hoje. Foi o hoje anterior. E o hoje antes desse. E o seguinte. E o passado. E desses hojes não saímos. Nunca. Pois pelo ontem nunca passamos, e no amanhã nunca chegaremos. É só hoje. Sempre. Agonia desse hoje que não acaba. Desse hoje em que nascemos, em que vivemos, em que morreremos. E o tão sonhado amanhã, nunca. O amanhã em que as coisas não mais serão as mesmas, nunca. O amanhã que não é hoje, nunca.

Sempre, sempre hoje.
E a agonia do ontem com o qual nos iludimos por ter vivido em outro dia. Conversa apenas. Quando foi, foi hoje também.
Sempre, sempre hoje.

-2010