Pinheiros (trecho 4)

A chuva forte caindo, incessante, paralisando as ruas, a cidade, o mundo inteiro. A água transborda de um céu incolor sobre a marquise das lojas, sobre todas as sujas esquinas, sobre os semáforos agora faróis. Os bueiros e os guarda-chuvas e os para-brisas não dão conta da tarde alagada, as pessoas se afugentam em saltos apressados, curvadas debaixo de suas bolsas, com medo, medo do fenômeno que apesar de recorrente em suas vidas ainda espanta, pois afinal é fenômeno, manifestação natural que pega em flagrante animais artificiais que se locomovem em máquinas, que andam vestidos, que pavimentam a terra, que aterram os mares, que sistematizam a fluência dos rios, que reorientam os raios, mas que são incapazes de impedir a chuva – a chuva há de cair e cai molhando tudo que foi feito seco, deixando todos perplexos, fazendo com que se retirem e aguardem enquanto o temporal banha o asfalto quente e os telhados áridos e toda gente sóbria, como um chuveiro ligado sobre a ceia posta sobre uma mesa de jantar ou um balde entornado sobre uma criança já debaixo de suas cobertas, pronta para dormir.

Escorrendo pelo para-brisa, as gotas borradas pelo vermelho do freio adiante alertam que pare, que o trafego, que o trânsito, o trânsito, o rádio ligado, que o trânsito, o trânsito, que a voz do Brasil, que o trânsito, desligo, que o trânsito, silêncio, o trânsito, que o trânsito, transito pelos meus pensamentos e o trânsito, a marcha automática e só os dois pedais, e o trânsito, e o tédio, o assento de couro com as abas laterais que aconchegam os rins e aparam o torso, o volante agarrado por baixo enquanto os antebraços repousam sobre as coxas, o volante de couro, o painel de couro, o interior das portas de couro, é tudo de couro, um couro preto, couro falso, que cheira à química, que cheira a produto de limpeza, os tapetes de papel amarelo sobre o chão para evitar a sujeira, o tubinho de álcool gel com cheiro de rosas depositado no porta-copos, um carro asseado, puro, antisséptico, e eu um corpo estranho, protegido sobre o teto do veículo, esse veículo que não me pertence, que me foi emprestado, e que por isso me põe em dívida, que me vexa e humilha, uma posse alheia, um ativo valioso na declaração do imposto de renda, uma propriedade privada, uma herança, um direito aos bens, um patrimônio a um ente querido, todo um legado sobre quatro rodas, esse sim, meu legado, predestinado, reservado e fadado a mim, não obstante a desigualdade social, a má distribuição de renda, o salário mais mínimo, os direitos humanos, nem o trânsito, esse carro é meu. Não o quero, mas é meu. Incondicionalmente pertence a mim, está atestado no sobrenome que carrego, aquele que divido com outros tantos homens que vieram antes de mim, cujas vidas se realizaram na direção da minha, o sobrenome que convoca e ordena, que se sobrepõe a todos os outros nomes, que designa um propósito a cumprir, que demanda uma posição, que exige um comportamento. O nome da família. O nome que me afiança esse mesmo carro, que denomina a rota a se tomar, que indica o momento de diminuir a velocidade, que estabelece o instante de ligar a seta e entrar à direita. Abaixo o vidro para provar a alcunha e logo abrem a cancela, o portal de ferro, dão-me um boa noite numa incontinência irrisória, sigo escuridão a dentro, os paralelepípedos irregulares chacoalhando-me a cabeça, por que não asfaltam essa merda de uma vez?, e estaciono logo em frente à casa.

“Pinheiros” (trecho 4)
gravação de leitura
– 2018

diálogos

Ela abre a porta e veste branco, uma cor que nunca a vi usando. Antes de mais nada, ela solta um longo suspiro de puro deleite.

“Oi.”

Sua voz parece um pouco mais grave que o normal. Talvez aqui, em sua própria casa, ela assuma seu verdadeiro tom aveludado. Talvez ela esteja apenas tentando parecer sensual.

“Tudo bem?”

“Sim, vem, entra.”

Largo a garrafa de vinho sobre a mesa de jantar logo ao lado da entrada e olho ao redor, olho todos os detalhes do apartamento, tentando decifrá-la.

“Linda a sua casa.”

Os livros, a maioria da editora em que ela trabalha, ocupam todas as suas estantes, estão apoiados sobre algumas das cadeiras, empilham-se em cantos do chão, parecem destroços, ela vivendo soterrada. Não sei se tomo aquilo como sinal de seu sedento intelecto ou como sintoma de um transtorno de acumulação.

“Senta aqui, vou buscar um hummus que fiz agora há pouco.”

O chão é de madeira escura, envelhecida, o ambiente pouco iluminado, os móveis esparsos, de bom gosto. Ela tem alguns posters pelas paredes, um filme iraniano para lembrar suas origens persas, um mapa antigo de Berlim, a foto de uma pintura de Chaim Soutine, daquelas que se compram em lojas de museus, nenhum quadro de verdade.

“Você gosta de azeite?”

“Gosto.”

Rasgo um naco do pão sírio e mergulho-o na pasta afogada em azeite de oliva. Ela me observa enquanto mastigo, observa os movimentos firmes da minha mandíbula que flexiono lentamente, sinto-me observado e acho que gosto.

“Vamos abrir seu vinho.”

Eu a acompanho com o olhar e noto o corredor escurecido que leva ao quarto, onde a noite que agora dividimos certamente acabará. Eu já notara suas mãos antes, seus movimentos delicados, comedidos, a forma como gesticulava, significando com os movimentos cada uma das palavras que saía de sua boca. A maneira como ela saca a rolha da garrafa é uma obra prima.

“Saúde.”

Tomo um gole da taça um pouco cheia demais e entendo que ela me serviu cheia de intenções. Falamos dos acontecimentos da semana, que nos levam ao um papo sobre política, de onde seguimos para os desejos que ainda nos afligem, revisitando nossos gostos em comum. Escuto ela declarar suas paixões por alguns cineastas, assumir suas invejas de alguns autores, tudo enquanto sorve, mais rapidamente que eu, o vinho barato que comprei.

“Sinto cada dia mais que a grande realização da vida adulta é que nunca nossos sonhos serão realizados, que a verdadeira maturidade é uma constante retração das nossas expectativas, até que finalmente elas encontrem o limite da realidade, onde talvez poderemos encontrar o contentamento.”

Concordo com ela, mas não falo nada. Fico quieto e escuto ela falar de todas as suas angústias numa onda de honestidade que chega com os últimos goles da segunda taça. Enquanto ela despe sua mente continuo reparando nos pequenos sinais de sua rotina: a maneira como ela coloca as folhas mortas sobre a terra nos vasos das plantas, o tubinho de vitamina c caído sobre a estante, uma pequena mancha preta na almofada que ela segura sobre o colo. Ela arrumou tudo antes da visita, mas para além do cortejo, da voz aveludada, do hummus e da forma como ela discursa calculadamente, sei que estou o mais próximo que já estive de conhecê-la, por completo. Quando a beijo, sinto que ela se entrega aqui também, de corpo, confiando totalmente em mim. Sinto nos seus lábios trêmulos, que agora exalam um leve aroma de uva, uma ligeira hesitação, aquele breve impulso de arrependimento que seguem todas as nossas escolhas, as certas e as erradas. Então tomo ela pelas mãos graciosas e a conduzo atrás de mim pelo corredor escuro até o quarto, como se todos os cômodos da casa fossem agora meus também.

-2018

s.t.

Há dias em que acordo frágil. Sinto a alma quebradiça, suscetível a todas as brutalidades do mundo, e tenho vontade de embalar meu coração em plástico bolha. Preciso de uma etiqueta que sinalize a todos, cuidado.

-2018

s.t.

Ela olha pra ele longe, do outro lado de uma multidão que ele atravessa mais rápido do que ela imagina possível. Logo está muito perto, perto demais, e sorri com uns dentes sacanas, mexe o torso nu numa íntima intimidação, desfere seduções indiscerníveis ao pé de seu ouvido. Ela diz que não. Ele a segura pelo braço todo pintado em purpurina, enlaça a mão em sua cintura despida e se derrama em amores vadios – que ela é linda, que foi destino, que é carnaval. Ela diz que não. Ele escolhe subentendê-la e com os lábios grossos e salgados rouba dela um beijo de carnaval, um beijo conquistado. Ela fica com o gosto do não na boca.

-2018

s.t.

Sabes que te observo enquanto você me olha dormir? Consigo ver o teu rosto concentrado através das frestas das minhas pestanas cerradas enquanto abro levemente os lábios e forço espasmos sonolentos no rosto. Você gasta um longo tempo com a cabeça apoiada sobre o travesseiro, bloqueando a luz fraca do abajur, e eu quase consigo ver minha própria imagem nos teus olhos negros. Pergunto-me se você sabe que estou fingindo, se mantemos esse hábito só pra poder partilhar de um mesmo segredo sem nunca precisar revelá-lo.

-2018

s.t.

Ela é rainha da rua quando desce até o ponto de ônibus. Balança os cabelos que vão secando do banho ao longo do caminho, enquanto os ombros frescos queimam com o sol da manhã. Os joelhos fortes brincam com a barra do vestido e o couro das sapatilhas é o mesmo da bolsa que carrega pendurada até a cintura. Ela plana ladeira abaixo. Quando passa à obra na esquina, cruza o caminho de um peão sem nome pra quem o sol já nascera há muito tempo. Tem a pele suada, negra como o piche que trabalha com a enxada em punhos, punhos firmes e sólidos de artesão. Sua concentração é toda investida no trabalho, mas não há chance alguma de mantê-la contra a brisa que sopra anunciando essa mulher. Sem hesitar, ele larga o ofício e sorri com os olhos, o tórax, todo o corpo potente, e arma com a boca larga o sorriso mais maravilhoso que já vimos em nossos vidas. Logo joga as mãos aos céus e se declara: “Te enchia de brilhante!”

Ela para!

O cortejo inesperado, o homem que é um touro, o calor do quase meio-dia, a brisa que passa por seus joelhos, a barra do vestido, o corpo suado, a boca dele cheia de brilhantes, a boca que ela nem se percebe beijando apaixonadamente em plena ladeira abaixo, aos olhos de todos os pedreiros e passantes, aos olhos sorridentes do homem que agora lhe toma em seus braços virulentos e a beija como um príncipe. Não trocam uma palavra pois tudo já foi dito. Ela segue seu caminho inabalável e ele toma de novo em suas mãos calosas a enxada, com o coração cheio daquela força que nasce de caminhos que se cruzam.

-2018

s.t.

I look at him while he’s still asleep, the faint sunlight starting to shine through our window, the window of his apartment, while he lies his face against his thin pillow, his long eyelashes trembling full of dreams, his naked body spent over the sheets, I look at him in total control, at last, and realize what I must and do not want to do.

-2018

Regina

Regina era o nome que ele tinha tatuado no braço. De comprido, ocupando todo o espaço entre o cotovelo e o pulso. A letra barroca, o R todo floreado, a tinta escura eternizada na epiderme. Um corpo desfigurado, o ritual da cicatriz, a oferenda do órgão ao amor. Às vezes ele ainda sentia a inscrição latejando, esgarçando-lhe a pele, pulsando com o sangue corrente: Regina, Regina, Regina. Então buscava o celular no bolso e procurava seu nome no aplicativo de mensagens. Abria a conversa vazia e via seu rosto na foto de perfil, o rosto que já quase não mais reconhecia, ao lado do nome, pelo menos o nome que ainda lhe era familiar. Regina. E logo abaixo, em raras ocasiões, surgia, online. Regina, online. Do outro lado da tela, com o aparelho certamente em punho, ambos presentes no mesmo instante como há muito não mais, no mesmo espaço-tempo, Regina. E logo o sinal que indicava sua conexão sumia e sobravam-lhe apenas o chat brilhando, a fotografia alheia, e o nome dela tatuado no braço. Para sempre.

-2017

continue e não desista

vista rio de janeiro nascer do sol

Cartões de embarque em mãos, “continue e não desista”, pensei. Da pequena janela ao lado da qual me sentei vi todo o meu universo diminuir de tamanho. Os cenários de todas as minhas memórias, minhas conquistas e derrotas, meus primeiros e últimos amores, todos os meus melhores e piores dias. Tudo agora ia se distanciando em uma maquete viva, um monte de terra, uma geografia irreconhecível. Eu parti, deixei tudo para trás, e nunca mais seria o mesmo.

gabrielabreu

-2016

s.t. (aforismo de Kafka)

Ela deita a cabeça no meu peito, seu rosto sobe e desce com a minha respiração, seus olhos expiram e minha camisa fica molhada em lágrimas mornas. Ficamos mergulhados nesta cama melancólica, seu corpo paralelo ao meu e ninguém fala nada. Aos poucos, vamos digerindo tudo que foi dito. Ou talvez seja um esforço mudo para que nada mais seja declarado. Essas tardes caladas são cada vez mais frequentes. Com um resto de fôlego ainda conseguimos reivindicar nossos corações em busca de compaixão, tomando aquele mesmo caminho de sempre, um tentando persuadir o outro a amar da própria forma. Logo desistimos. Logo não se valem mais os berros, logo é mais fácil calar, logo não dá mais para continuar assim. Um choro de alívio, um suspiro rendido, retomamos mais tarde… Como uma trilha no outono: mal foi varrida, cobre-se outra vez de folhas secas*. Por enquanto o amor está quite.

*Aforismos Reunidos, Franz Kafka (Serrote, 2009)

-2016