Enciclopédia de Talheres

Os talheres são objetos criados com o intuito de auxiliar o ato da alimentação humana. Consistem em longas ferramentas compostas, em uma de suas extremidades, por um cabo, onde se dá o seu manuseio, e, na outra, variando de talher para talher, de diferentes formatos de metal, onde se dá a sua utilidade, tendo como intuito comum o de levar bocados de comida à boca. Os feitios das extremidades úteis de cada um desses objetos similares diferenciam-se da seguinte maneira:

1. A faca

Extremidade que corta. Consiste geralmente em uma lâmina de metal que, em um de seus lados, afina-se cada vez mais até formar um gume, cujo fio executa a incisão. Interrompe assim uma ligação, como as fibras de um pedaço de carne de vaca, a trilha das sementes de um pepino, ou o trançado de um croissant de chocolate. Por vezes, tem dentes que serram alimentos mais difíceis de serem divididos em uma única moção, como um pão francês, o qual talha-se mais eficientemente por um vai e vem da lâmina dentada. Existem ainda os tipos de faca que não cortam, aquelas desgastadas, porém nunca descartadas da coleção do refeitório da empresa onde se trabalha. Essas são geralmente utilizadas com o principal intuito de empurrar as últimas porções do almoço para cima do garfo. São também as facas mais seguras de se lamber, já que, uma vez carecas, não oferecem perigo nenhum à língua que busca os restos de uma fatia de torta ou de uma pasta de amendoim.

2. A colher

Extremidade que colhe. Consiste em um metal em formato de concha, usado principalmente no apanhamento de líquidos comestíveis, como sopas e cremes. É recomendável que seja inserida por inteiro dentro da cavidade bucal durante a ingestão de seus conteúdos. É importante não sugar o líquido da colher e evitar que os dentes batam no metal, pois entende-se no Ocidente que é descortês causar barulhos durante a refeição. A colher pode ainda ser introduzida na boca em posição invertida, de costas para cima, no caso de alimentos mais viscosos, que grudam, como o brigadeiro de panela, ou o doce de leite. Dessa forma, a superfície da língua preenche mais inteiramente a concavidade da colher, maximizando assim a satisfação daquele que come.

3. O garfo

Extremidade que espeta. Consiste em um metal de três a quatro dentes alinhados, levemente curvados, que segue ora o mesmo método de apanhamento de alimento da colher, ora seu próprio processo de cravação de seus espetos no alimento. Não se recomenda a estratégia de fincar no caso dos alimentos dificilmente trespassados, geralmente aqueles de formato redondo, como ervilhas, ovos de codorna e cebolinhas em conserva. Diferentes dos da faca de serra, os dentes do garfo são longos e pontudos, como no cedro de Netuno, e podem assumir também o papel da faca, sendo possível usar sua lateral para cortar o alimento quando se há preguiça de usar as duas mãos aos mesmo tempo. Por esse motivo, o garfo é o talher mais versátil. É passível, no entanto, de ter seus dentes entortados e desviados em diferentes direções, o que o inutilizaria. Nesse caso, entretanto, basta introduzir-se uma faca por entre os dois dentes em cada um dos lados daquele empenado e força-lo de volta à posição correta.

-2016

O jogo de tênis

Dois tenistas em lados opostos de um campo de batalha. Joelhos flexionados e antebraços atentos, posição de ataque com espadas em punho. Na eminência do golpe, aguardam pacientemente em silêncio, até desferirem a pancada fatal contra o seu adversário. Trovão gutural. Deixam pairar sobre o ar pequenos fiapos fluorescentes da bola, que agora perfura penosamente o espaço pesado e opaco entre eles feito de luta, calor e suor evaporado. Choque. A cada disparo e guinada de pés, mais saibro no ar, se alastrando feito fogo, criando uma neblina incandescente sobre a quadra, a arena em chamas, tingindo toda a atmosfera e a pele dos soldados de um rubro sangue. Guerra. O combate lhes escorre pelo rosto, a respiração é ofegante, o público delira. Circenses. Entre ações e reações, sofrem-se pequenas derrotas, alcançam-se pequenas vitórias, e a resolução de ambos se mantém inabalável. Corpo a corpo, buscando redenção e glória. Seu esforço é heroico, sua faina é intensa, é um jogo violento, um duelo mortal. São gladiadores.

-2016

imagem:linguagem:memória

1

Ter um balde de água gelada jogado sobre nossas cabeças talvez seja a única sensação que consiga nos remeter às emoções explosivas da infância. A imagem do líquido glacial cobrindo a pele morna num arrepio quase nevrálgico dá vontade de gritar, pular, correr, jogar as mãos aos céus! Ou ainda, como para as criaturinhas da foto acima, de sorrir. E em seus sorrisos incontroláveis, de bater o queixo, eu também não consigo não sorrir. Sou sempre tomado pela ideia de que talvez esse tenha sido um daqueles melhores momentos da vida que passam despercebidos. Ter a foto é uma sorte, sorte de ter registrado para sempre um instante de total descompromisso. A câmera ainda capta o olhar de um dos meninos, mas ambos mal prestam atenção ao fotógrafo. Apenas aguardam, de potinhos em punhos, por mais água! Fora a sua festa, são alheios a tudo.

Mal se dão conta da anciã, fonte de seu júbilo. Pouco percebem que ela esparsa o jorro que cai da jarra de plástico para proteger seus corpinhos num afeto tão sútil que só de avó. Não observam o seu próprio regozijo, estampado em um sorriso escondido atrás da brincadeira. Reparam menos ainda na existência da senhora de pernas serenamente cruzadas ou nas duas silhuetas que aparecem ao fundo, dois homens servindo-se em silêncio do espeto de carne disposto no meio da mesa entre eles. O contraste entre a alegria dos meninos em primeiro plano e a taciturnidade dos homens ao fundo é para mim a própria essência da fotografia, figurando a perda da inocência durante a vida. Como as crianças, os dois senhores passam a tarde de torsos nus, mas esses não são mais leves e radiantes, porém curvados e sombrios. Nenhum dos dois sorri mais, apenas mastigam a carne fibrosa do churrasco em meio à escuridão. Ainda noto aquele mais à direita mirando de muito, muito longe a felicidade dos miúdos em uma nostalgia quase amarga. São o exato oposto das criaturinhas e, ainda assim, o seu futuro.

Apesar da realização trágica, os sorrisos infantis triunfam e ficam gravados na memória. Só então me lembro de que a fotografia foi tirada durante uma tarde de verão indistinta na cidadezinha de Passo Fundo, um local de nome aqui apropriadamente remoto. Dou-me conta de que a representação da felicidade na imagem, que agora é uma preciosidade, é curiosamente resultado dos dias passados à toa, de calção de banho e descalços sobre um pátio de pedras molhado.

E então sorrio de novo.

-2016

Os Filhos de Sandra

A única outra vez que ele tinha ido à Guapimirim havia sido na ocasião de um outro enterro, do marido de Sandra. Ele não devia ter mais de sete anos na época, mas uma imagem daquele dia perdurara e rastejava agora insistentemente para dentro de sua cabeça – o caixão, o primeiro de sua vida, mirado de longe pelo para-brisa molhado, as gotas escorrendo devagar e distorcendo as silhuetas das poucas pessoas presentes no cemitério. Seus pais haviam ficado dentro do carro com ele, apenas observando, dois espectadores alheios ao horror daquele dia que afligia aquelas poucas pessoas curvadas na chuva. Era fácil distinguir Sandra dos outros naquele pequeno grupo, mais ainda por ser ela quem todos consolavam. Já então ele tinha a impressão de ter ouvido seus pais falando que o marido dela bebia muito, que batia nela e nos filhos e que acabaria matando a si mesmo. Mas talvez tivesse imaginado isso, ou se de fato tivesse ouvido, não prestara atenção. André ainda não tinha posse do sentido da barbaridade, nem nunca viria a ter como quem recebia, do outro lado, a fivela. Sabia, no entanto, que Sandra sofrera pelas mãos vivas do marido e sofria agora por seu corpo morto, e então seu pequeno coração solidarizava-se. “Isso é assunto de família, André”, sua mãe justificava a negativa quando ele pedia para sair do carro. Haviam dirigido da Barra da Tijuca até o pé da serra para levar Sandra até sua casa assim que ela teve a notícia de que seu marido havia sofrido um ataque do coração. O pai de André havia se oferecido para bancar o enterro e determinou que Sandra tirasse o resto da semana de folga. Na despedida, Sandra agradeceu por toda compaixão mais uma vez, beijou o filho de seus patrões na testa e voltou para sua família.

Desde então André nunca mais pensara nem ouvira falar no nome daquele homem. Até o dia em que voltou a Guapimirim, depois de todos os anos passados, para ver, desta vez de perto, ser sepultada ao lado da cova de seu falecido esposo, sua babá Sandra. Toda de branco como ele sempre a conhecera em sua casa, Sandra tinha uma expressão de eterna serenidade que André nunca antes havia visto em sua face. A mulher que trabalhara desde os treze anos de idade para sustentar, viúva, os sete filhos, havia finalmente entrado em um repouso impassível. A obra de sua vida, toda sua família, parentes e amigos, estavam presentes no velório. Seus 21 netos, suas comadres de décadas, todos os foliões da escola de samba que havia ajudado a fundar anos atrás, secretários da prefeitura da cidade para quem ela era como uma tia, dezenas mais que haviam cruzado caminhos com ela durante sua vida. Todos e André. O menino que ela havia criado para criar os seus. Seu filho branco. André faltou a aula na faculdade aquele dia e dirigiu ele mesmo até o local onde sua mãe de criação – como costumava chamá-la – seria enterrada. Veio sozinho dessa vez, sua mãe estava viajando e seu pai, ocupado. Este deu-lhe, no entanto, quinhentos reais para que o filho desse à família de Sandra, para ajudar com quaisquer despesas. Sandra, na verdade, já não trabalhava na casa da família há quase um ano, desde que havia ficado muito cansada para dar conta do serviço. Ela tinha a mesma idade que os patrões, mas o tempo sempre passara mais rápido para ela. Seu pai decidiu dispensá-la e desde então André não a via.

Sandra chegara à casa dos pais de André quando tinha 35 anos, ele ainda recém-nascido. Já havia passado duas décadas na casa dos outros, no trabalho doméstico. Cozinhava, limpava, lavava, passava e era babá. Não havia chegado à metade do ensino fundamental, mas era esperta, resoluta e aprendera a causar uma boa impressão. A mãe de André havia recebido uma recomendação de uma amiga para quem Sandra trabalhara – ela era honesta, trabalhadora, comportada e limpinha. Foi contratada depois de uma conversa no apartamento e na segunda seguinte foi trabalhar para um novo Seu e uma nova Dona. Os patrões eram bons para ela. Recebia um pouquinho mais que o piso salarial, além de ter plano de saúde e transporte pagos. Sandra fazia o trajeto da beira da região serrana até a zona oeste do Rio toda segunda. Saía de casa às 4 da manhã, sem acordar nenhum dos filhos, para pegar duas conduções e chegar a tempo de fazer o café. Alguma prima, tia ou amiga sempre olhava as crianças, mas naquela época suas meninas mais velhas há muito já trabalhavam, toda semana seguindo o mesmo destino da mãe. As do meio ajudavam a tomar conta dos irmãos, exercitando o futuro ofício. Sandra voltava a ver os filhos só na sexta-feira, quando chegava em casa quase à meia-noite, exausta e feliz. Nos dias de semana dormia no quartinho nos fundos da cozinha, ao lado da área, no serviço. Tinha uma cama boa, uma janela para o varal, uma televisão e um ar condicionado de parede. Os patrões eram bons para ela.

Sandra cozinhava e tomava conta de André. Logo que começou na casa se apaixonou pelo menino, com o cabelo virado em cachinhos e de olhinhos verdes. A patroa ficou em casa por alguns primeiros anos, parando de trabalhar, dando atenção ao primogênito sempre que Sandra não precisava. Dava-lhe de mamar, Sandra o fazia arrotar, dava-lhe banho, Sandra trocava-lhe as fraldas, e vice-versa. Ela assumia para Sandra fazer o almoço e arrumar as camas, e podia depois descansar da arduidade de ser mãe. Aprendeu os artifícios da incumbência com a babá, que já era experiente. Acabou acostumou-se à sua companhia, já que o marido voltava do trabalho só tarde da noite. Mal se preenchia a casa com a presença das duas mulheres e do menino, mas Sandra gostava da paz para trabalhar. A lavagem das roupas e a faxina eram uma outra moça que vinha todo dia que fazia, cargo que logo foi ocupado por uma das filhas de Sandra. O patrão aceitou seu pedido de trazer uma delas para o serviço quando a diarista pediu demissão e veio a mais velha ficar junto da mãe. A mãe de André ficou com receio das novas circunstâncias atrapalharem o funcionamento da casa, mãe e filha juntas tanto tempo talvez desse problema. Mas a garota puxava à mãe e tinha boa índole. Algum tempo depois, Sandra conseguiu também trazer um de seus filhos para cuidar do jardim. Seu patrão construiu um pequeno aposento nos fundos do quintal para os funcionários e a casa passou a ter duas famílias. Ele também emprestou dinheiro à Sandra para a construção de uma casa em Guapi, que ela pagou com um pequeno desconto de seu salário durante alguns anos depois. Não foi o único sonho que lhe realizaram. Ela conheceu também os Estados Unidos, quando André ainda era pequeno e a família viajou para a Disney, levando-a junto para ver o mundo, contanto que não tirasse os olhos do menino. O patrão era um homem taciturno, alto e sólido como um touro, porém generoso com ela. Sandra tinha enorme gratidão àquelas pessoas, passou a vida pedindo a eles a benção de Deus, e provavelmente morreu acreditando-se devedora.

Para o menino, Sandra era como uma mãe. Acostumado à babá desde que se entendia por gente, quando criança, André só conseguia dormir se Sandra deitasse ao pé de sua cama até que ele pegasse no sono. Sua mãe dava-lhe um beijo de boa noite, e Sandra ficava com o menino, contando-lhe suas velhas histórias no escuro, até que ele pegasse no sono. Aquela de que André mais gostava era a de Rosaflor e a Moura-Torta, que contava a história da mulher de pele escura e enrugada que diariamente tinha de buscar baldes e baldes de água para seus senhores, e que um belo dia fincava uma agulha na cabeça de uma linda moça que ria de sua feiura, transformando-a em uma pomba e tomando sua identidade em represália para casar-se com o príncipe prometido à bela. No fim, a moura era desmascarada, permitindo que a moça voltasse a ser linda como antes e vivesse para sempre junto de seu nobre marido. Apesar do final feliz, André sempre sentia pena da vilã, que sempre voltava a carregar baldes de água e ser maltratada por conta de sua feiura. Sua mãe não gostava que Sandra lhe contasse aquelas histórias sórdidas demais para uma criança, mas ele insistia todas as noites quando ela os deixava sozinhos e Sandra acatava. A babá vivia fazendo suas vontades. Assistia os mesmos desenhos animados incontáveis vezes, preparava-lhe todos os lanches prediletos, oferecia colo sempre que ele era castigado pelos pais. André cresceu encontrando tremendo conforto no ventre quente de sua babá, no grave som das melodias murmuradas que ela produzia com o fundo da garganta, no cheiro de preparo de comida que ele sentia em suas mãos e roupas. André gostava de passar os dedos pela sola do seu calcanhar, toda esbranquiçada e áspera com o gasto dos anos duros, suas graves linhas marrons nas palmas das mãos, seu grisalho cabelo tonhonhoim cortado curtinho. Gostava de ir com ela à feira para comprar frutas e verduras, vivia rodeando-a na cozinha sempre que ela estava preparando as refeições, gritava seu nome sempre que ralava um joelho pelo jardim. Sandra ia correndo, acudir seu menino, seu Dézinho. Dézinho de Sandra. Ela via o seu menino crescer e sempre lhe enchia de confiança. “Tá ficando homenzinho já, vai quebrar muito coração.” Ano a ano, ela ia ajudando a formar o seu caráter. “Onde já seu viu, moleque, bater nos coleguinhas?”, “Para de marra, André, pode comer tudo!”, “Deus que me perdoe, gente, olha o estado desse teu quarto! Você não tem vergonha na cara não, menino?”, “Larga mão de ser bagaceira, André!” Logo o menino cresceu barba, começou a se aventurar no amor, e passou para a faculdade. E Sandra sempre lá, vendo seu menino virar homem, sempre esperando-o voltar para casa. André levava-a a todos os ritos de passagem, às formaturas, cerimônias e aniversários. Sandra se arrumava toda, botava sua roupa de sair e ia orgulhosa. Ele dizia que daria os próprios filhos para ela tomar conta, em voto de confiança e carinho, e ela sorria e brincava que já estaria velha de mais, que estaria aposentada. Mal passava pela cabeça de André que ela poderia largar a família. Ele despercebidamente imaginava que ela moraria ali até seus últimos dias. Até que a viu partir por justa causa. Ficou furioso com os pais, que explicaram que não fazia mais sentido mantê-la, já que ela não conseguia mais fazer o trabalho. André achou de uma insensibilidade tamanha demitir a mulher que o havia criado, mas ele sabia que antes de tudo ela era uma empregada. Apenas para ele é que ela era uma protetora, um ninho amparador, um seio de afeto. Prometeu visitá-la, com o coração apertado, porém desde então nunca tivera tempo.

Sentado sozinho agora no banco da igrejinha de Guapimirim, agonizava em remorso. A maioria das pessoas já estava presentes quando ele chegou, de forma que foi direto sentar-se em um dos assentos do fundo. No espaço lotado de gente, André reconheceu os filhos de Sandra. Cumprimentou de longe os dois que ainda trabalhavam na casa de seus pais e acenou discretamente com a cabeça aos outros que mal conhecia. Todos retribuíram com um sinal sóbrio em reconhecimento de sua presença. Sete adultos formados, com suas próprias crias em volta, todos velando a mãe que dividiam com André. A cerimônia durou pouco mais de uma hora e foi seguida do enterro no cemitério, logo ao lado da capela. André sentia-se incoerente àquela cena, o ataúde sendo levado pelos filhos de Sandra até o seu jazigo sob a garoa fina que coincidentemente caía naquele final de tarde. Não conhecia ninguém ali, porém era provavelmente a pessoa com quem a falecida mais havia convivido. Ele não discursou, não viu o corpo de Sandra e não conseguiu chorar. Depositou apenas as flores que trazia consigo sobre o caixão antes de o cobrirem com terra. As pessoas começaram então a dispersar-se, e André sentiu um certo alívio pelo fato da ocasião fúnebre estar chegando ao fim. Nada ali o fazia recordar do espírito de sua babá, tudo era estranho ao seu conhecimento de Sandra. Nunca a ouvira falar sobre sua vida pessoal, contar histórias de seus amigos, detalhes sobre seus filhos. Nunca fora além do limite da existência de sua mãe de criação dentro do qual ele também se encontrava. Estar na presença de todas aquelas pessoas tão estranhas a ele, porém tão queridas à Sandra, o deixava extremamente inquieto por fazê-lo perceber que ele não a conhecia por completo, apenas a parte de sua pessoa que lhe dizia respeito. Novamente o remorso. Ele queria ir embora o quanto antes possível para não prolongar aquele sentimento, que agora, mais do que nunca, parecia irremediável. Iria até os filhos de Sandra despedir-se e volataria logo depois para o Rio, de onde, havia decidido agora, não devia ter saído. Uma cerimônia própria, privada e simbólica, em memória da alma luminosa de sua babá, teria sido o suficiente. Tarde demais. Pois diria adeus aos filhos de Sandra e, com eles, à memória dela. E pronto. Começou a dirigir-se à família quando, botando a mão no bolso das calças, sentiu o pequeno envelope com os quinhentos reais que o pai havia lhe dado para que entregasse ao filho mais velho da babá. Um calor constrangido lhe subiu subitamente pela espinha. Os filhos de Sandra já o haviam percebido indo na direção deles e já se preparavam para o que poderia ser uma incomoda, porém necessária formalidade. André não podia mais voltar, seria estranho demais. Não sabia o que seria pior, ter de entregar o dinheiro comiserado ao filho cuja mãe defunta ele havia reivindicado para si, ou dar meia volta e partir para nunca mais dizer nenhuma palavra a nenhum deles. Mas não poderia fazer isso, os dois que ainda trabalhavam em sua casa estavam também ali e isso causaria um desconforto ainda maior quando ele os encontrasse na segunda-feira – o pai de André os havia dado o resto da semana de folga, ele era bom para eles. Escolheu, pois, a única opção. A ajuda, de qualquer forma, haveria de ser bem vinda, a família ficaria grata pelo auxílio com os custos do dia. Eles sabiam que o pai de André era generoso, tinham agora uma casa de herança por conta dele. André finalmente chegou junto ao grupo, abraçou os filhos de Sandra que conhecia há anos, seguidos, um a um, dos que praticamente via ali pela primeira vez. André se sentia como se seu coração houvesse trocado de lugar com sua consciência, que agora quase explodia em vontade de reconciliar o que não poderia nem sequer ser expressado. Abraçou cada uma das outras quatro filhas de Sandra, simplesmente dizendo que sentia muito. Foi, talvez, o mais honesto que poderia ter sido. Quando parou diante de seu filho mais velho apertou-lhe firmemente a mão e repetiu seus pêsames. Marlon era um homem altíssimo e macérrimo, com a barba por fazer e os olhos em um fundo negrume úmido. Ele agradeceu a presença de André que, puxando-lhe de lado, estendeu as condolências de seus pais à família de Sandra. Nesse momento, já arrependido, André puxou o envelope do bolso e o entregou a Marlon, sem dizer uma palavra, apenas oferecendo os seus pesares monetários. Marlon mirou o envelope e voltou o olhar para os olhos de André. Os dois filhos de Sandra prenderam um ao outro em um olhar onde tudo parecia estar explícito. Um olhar onde toda sua culpa e aquiescência cegava-os. Um olhar de injustiça e necessidade. De omissão e submissão. Marlon buscou o envelope que André suspendia no ar e botou-lhe no bolso. “Obrigado”, disse no mesmo grave tom gutural em que sua mãe murmurava canções. André soltou a respiração, disse que voltaria em breve para visitar o túmulo de Sandra e partiu, caindo em um choro desesperado quando entrou em seu carro. Nunca teve tempo de voltar.

-2016

aquela noite

Lembras daquela noite que passastes comigo? Quando as paredes do meu quarto eram o limite do universo e que infinito era apenas o nosso amor? Eu tinha você nos meus braços e apertava todas as partes do teu corpo pra poder dizer que eu era dono de alguma coisa, mas não adiantava, eu era teu e teu era tudo o que eu era. Parecia que o Sol nunca nasceria de novo, mas do teu sorriso vinha a única luz de que eu precisava. Debaixo do meu cobertor não havia espaço pra memórias ou planos, apenas pra certeza de que jamais nos sentiríamos sozinhos. Eu punha músicas pra tocar e você fingia que as escutava quando na verdade ficava me olhando cantar, sabendo mais e mais a cada nova melodia que eu era o homem pra você. E você era a mulher a quem eu dedicaria todas as minhas canções. Você me tornava humilde e era na sua simplicidade que eu encontrava a minha extravagante alegria. Era nos teus cabelos que eu encontrava a minha paz, nas tuas mãos, o meu sossego, no teu colo, o meu propósito. Em silêncio, nos prometíamos. Acho que aquela foi a melhor noite da minha vida.

-2014

Terra

Que terra estranha é essa em que até meus sentimentos são estrangeiros? Em que não falo a língua de meus pensamentos e em que minha própria angústia não me faz sentido? Piso firme em um solo que não entende o meu caminhado, procurando um refúgio onde eu possa descansar sozinho. Tudo é novo e medonho, excitante e desconfortável. Só subo as ladeiras do dia porque à noite sei que exausto irei descê-las. Minhas únicas ladeiras que me fazem sentir saudades de casa. Casa que às vezes até esqueço onde fica. Meu coração então grita perdido no escuro de seu peito. No entanto, para minha sorte começa a chover fino e finalmente me acalmo, pois o cheiro de terra molhada é o mesmo seja ela estranha ou conhecida.

-2014

constante sentimento

No caderninho procuro o texto que outro dia escrevi. Lembro-me, ele emocionava e falava à mais profunda face da alma. Expressava o que mal podia ser compreendido e aliviava o coração da dor de não saber o que sente. Ele consagrava a pequena página e pedia pra ser manifestado. Ele era um texto herói e seus versos salvavam. Mas não acho o textinho.

-2014

Mostarda

A máquina em que escrevo agora não aceita bem minhas ideias. Pra que me obedeça tenho que bater com força em suas teclas senão as palavras não saem dela, como se de quando em quando ela descordasse do que tenho a dizer. Talvez ela ache que ridícula a ideia de estar sendo utilizada para escrever um texto metalinguístico, afinal seu propósito há de ser maios que a expressão de si mesma. Comprei-a em um mercado de pulgas no centro da cidade em um sábado qualquer. Entre as muitas disponíveis ela tinha o menor preço, além da cor mostarda que me chamou a atenção. Gosto muito de mostarda, a cor, apesar de também gostar do condimento. Essa ultima frase custou a sair, acho que minha máquina sente-se ultrajada. Tiro sua tampa superior para ver o mecanismo em ação: suas molas estão à mostra, seus parafusos descobertos, todas as pequenas engrenagens à vista. Vejo sua fita de tinta velha que ainda não troquei, nela a marca de milhares de palavras que não escrevi, de mensagens que não são minhas, destinatários que não conheço. A fita usada que vos escreve agora carrega a soma de histórias, a atemporalidade de diversas cartas de amor, a incomensurável insignificância de relatórios passados. E carrega também agora, aos poucos, sua autodescrição. Pela fita usada percebo que essa máquina na verdade não se importa em falar de si mesma. A dificuldade no datilografar não é relutância sua, mas apenas o reflexo de sua idade. Ela não se importa que eu a faça falar do que eu quero. Ela não se importa em falar de nada, pois essa maquina não é uma dama de ferro, ela é a ferramenta à qualquer um que precise materializar-se, é uma guerreira antiga.

-2013

prochain arrêt

Não percebi quando o casal entrou. Pararam bem na minha frente e quando olhei lá estavam de costas, apoiados no banco em frente ao meu. Ele tinha o cabelo moreno e curto e usava uma blusa com grandes listras verdes. Ela de vestido castanho, contrastando com o loiro dos longos cabelos que desciam pelos ombros. Num entrelaço de braços os dois se acomodaram e começaram a conversar. Falavam inglês, mas não alto o suficiente pra que eu discernisse o assunto. Só via as suas costas, mas eu sabia que o que ela dizia era sério. Discursava olhando a parede do vagão, mirando fixamente o aviso que proibia o fumo e a agressão física e verbal contra os fiscais do transporte. Não piscava, mas também não lia o que estava escrito, porque toda a sua concentração ia para o recado que agora dava ao homem, o recado mais importante da vida. Recado que dele recebia a mesma desatenção que a advertência sobre o fumo e os fiscais. Ele também estava concentrado, mas no rosto que não o fitava. Analisava cada curva, cada músculo em ação, cada poro magnífico. Num pequeno momento do dia, os dois esqueceram de si mesmos e existiam apenas um pelo outro. Os corpos já colados se apertaram ainda mais quando o vagão do metro encheu após ter parado na estação da rodoviária. Encheu mas continuava vazio. No descuido de um beijo o olho dela apareceu de relance, mas o êxtase foi momentâneo pois logo depois virou-se novamente. A barba era suja e a alça do sutiã lhe apertava demais, mas aquele era o casal mais incrível do mundo. Quando o sistema de som anunciou a próxima parada, para a minha desgraça, era a deles. Tentei fechar os olhos mas a tragédia não me deixou! Os dois viraram. De relance olharam pra mim, como se eu fosse uma outra placa de advertência sobre fumo e fiscais. Eles não eram mais interessantes. Não se amavam mais, não eram mais um casal, não eram mais nada. Eram um homem de barba e uma mulher de cabelos loiros que por um instante foram tudo pra mim.

-2013

não há palavras

As palavras estão por todos os lugares. São exibidas. Estão no silêncio do lago, de água verde e misteriosa. Estão no píer imóvel e solitário, que à noite não serve ninguém. Estão no cheiro do gim carregado pela brisa da noite. Estão nos ruídos dos jovens ao longe que acreditam existir sozinhos. Estão no cisne que desliza à margem, enroscado na própria melancolia. “Escreva-me! Escreva-me” – grita o cisne. Estão nas boias que não desistem na batalha da física, e nos barcos que dançam por obrigação amarrados uns aos outros na marola da madrugada. E em seus longos mastros, que junto das velas recolhidas formam ângulos no céu sem estrelas. Ângulos que me fazem tão, tão triste. Choro pelos ângulos, e até em minhas lágrimas estão as palavras. Citando a ardência do rosto, a permeabilidade da pele, a hidrodinâmica da gota. Tantas palavras pra tudo mas nenhuma pra mim. Sou como um dicionário que acha definição para tudo, mas que ao querer dar razão a si mesmo não encontra nada além da irônica e inútil metalinguagem.

-2013