Que é pro mundo ficar Odara

Num domingo público, Marcos sentou num banco chuvoso da General Osório. A praça estava vazia, eram Marcos, uns poucos mendigos e umas pombas gordas. Ele desenterrou um cigarro do decote e o acendeu com um dos fósforos da caixinha que trazia na minúscula bolsa dourada. Mal chagara às cinco da manhã, e já não era mais Odara. Odara havia ficado na noite, onde ele sempre a encontrava, deleitada no direito da imaginação, desnorteando a realidade. Agora restavam-lhe apenas o forte batom borrado que lhe irritava os lábios, a vulgar meia-calça rasgada há tempos, um orgulho pouco e o gênero que carregara a vida inteira. Marcos já sacava o segundo cigarro quando percebeu uma mulher indo trabalhar. Levava uma sobrinha e uma mochila pendurada nas costas. Vestia roupas simples, e apesar dos culotes salientes e dos seios pequenos era uma moça bonita, de cabelos fartos e feminilidade importante. Marcos pousara sem perceber as corajosas mãos nos peitos caros. Brotou-lhe então dos olhos desbotados, que ainda fitavam a moça, uma lágrima carente. Uma pétala de vontade que exibia aos pedintes e aos pássaros um estranho evidente, um desorganizado sentado na garoa de Ipanema que havia sempre na vida procurado a ausência do poder que lhe era justamente muito presente. Quando a menina sumiu numa esquina, Marcos enxugou como um homem a gota do rosto maquiado, empréstimo de Odara, e se levantou do banco, acendendo por fim o terceiro cigarro. Bruta flor do querer, de expediente terminado,  foi pra casa cambaleando sobre os saltos finos.

-2012

 

esboço positivo

Não há remédio àqueles que sofrem da peste da angustia crônica. Da incerteza esporádica, da aflição companheira. A das visitas ocasionais, nas quais entra sem bater e senta gorda ao coração com um sorriso arrogante na cara. Sorriso de quem sabe ter submissos a si nós, os angustiados. Quando se nasce assim acostuma-se com o tempo. A indecisão vira um vício, uma mania ociosa. O sintoma é um só: o questionamento. De tudo. E sem ter como objetivo obter uma resposta. É essa falta de rumo que nos assombra. Minto; não falta de rumo, mas o excesso deles. Aí se enobrece o desespero. Todos os cálculos que antecedem uma decisão tentando antecipar as suas conseqüências, todo o esforço para evitar o arrependimento (porque para os que nesse caem, coitados, não há saída) e ainda de novo a dúvida entre continuar no infortúnio medíocre ou se arriscar na tentativa de uma guinada rumo à ventura. Ah!, a guinada. Vestida na pele de cordeiro, na qual tantos se perdem. Olha aí outro medo. É a romaria nossa, acostumados ao penar da sensação. Aos quais o violento sopro da realidade bate mais gélido. A quem de supetão a vida exibe, sem juízo nem precedente, as consistentes tetas, às quais não se tem reação e fica se pensando no que fazer. Há quem diga “as agarre!”. Eu diria também. Viveríamos num bacanal caótico, “sem guerra e sem glória”, animais felizes, como Deus criou. Mas o que o humano uniu, o homem não separa. E assim se segue, procurando algo ou alguém temporário que aquiete o espírito em meio a essa moral de rebanho, onde morrem e nascem os trabalhadores, os artistas e as putas.

-2012

melancolia cor de rosa

À avó que chamávamos de Îde.

“Aqui jazo, jovem”, me declara a nostalgia. À ela cheira a casa que há pouco foi apresentada também ao hálito tétrico de um adeus definitivo. Soa lúgubre, mas essa não é a intenção. Na realidade a atmosfera da casa que é agora órfã da matriarca é repleta por uma melancolia cor de rosa. “Um jeito romântico de ficar triste”. Como o sossego que sucede uma chuva forte e deixa no ar o aroma de terra molhada e do sigilo de uma família que se encontra numa magoada poça de alívio. Ou ainda o silêncio que precede a tempestade silenciosa de neve que atapeta as calçadas e sufoca nossas angústias.  Da doença antiga resultara apenas um sopro de vida e a previsão de um fim cedo do qual todos estavam avisados. Agora ficamos perdidos em fotografias de há uma infância atrás, achando sussurros de memórias passadas. Encontrando inusitadamente elementos que o tempo consumiu e cuja falta faz o mundo parecer um lugar mais alheio e menos original: Os verões campestres a cavalo, a criatividade inocente e marginal, o valor dado ao simples, a apreciação do ócio, os acasos que reuniam quem hoje não encontra reconciliação. A inexistência de dores de cabeça, a inércia emocional, a ignorância espontânea. Lembranças que me fazem desconsiderar o agora, e similares as quais outras terei quando for adulto e me lembrar da época distante que vivo atualmente. Nesse carrossel da nossa existência, presos numa nostalgia cíclica, choramos presentemente insatisfeitos as lágrimas da vida. Talvez o princípio seja de fato a melhor fase dela por não haver antes nada do que possamos nos lembrar. Durante o seu decorrer perdemos alguns, ganhamos outros, permanece apenas o espírito da família que há muitos anos atrás foi criada por quem hoje é velho e carrega nas rugas o nascimento dos filhos, a infância dos netos, o desprazer dos cônjuges. Os sofrimentos da estirpe, os seus próprios e os pêsames da aliança que proveio do esposo um velho feliz, dono hoje da saudosa noção de que a vida segue e tem de ser seguida.

-2011

Transcendências do Iguaçu

Voltei há pouco de uma viajem a Foz do Iguaçu. Ficamos hospedados no parque nacional da cidade, com as cataratas (a parte que ao nosso país pertence) à vista do quarto do hotel. Também do hotel avistava-se logo à frente o solo argentino. A trilha das quedas brasileiras começava a apenas alguns metros do lobby principal e os próprios recepcionistas nos proviam de capas de chuva descartáveis para se proteger do vapor causado por um chuveiro com vazão de 1,4 milhões de litros de água por segundo. Os números de fato impressionam e a paisagem é bonita, mas confesso ter me decepcionado ao final da trilha. A magnitude do lugar não correspondeu às expectativas de um megalomaníaco ávido por ver algo grandioso. O Jet Lag foi logo compensado no dia seguinte por uma visita à hidrelétrica de Itaipu. A ansiedade por magnificência foi saciada pela suntuosidade de um milagre de concreto do tamanho de um prédio de 65 andares, com um escoamento (40 vezes maior que o das pobres cataratas) cuja força movimenta turbinas de aproximadamente 50 metros de diâmetro, processo que resulta em fios condutores de meio milhão de volts cada. Um Édem produtor de energia limpa. Saí farto.

O programa do dia seguinte era novamente uma visita às cataratas, dessa vez àGarganta do Diabo, maior queda de todo o conjunto (90 metros de altitude), localizada no território argentino. Achei que fosse novamente me desapontar com a desilusão, mas fui pela experiência de comer um chorizo dos hermanos. O restaurante era asqueroso. Depois da tentativa mal sucedida pegamos um trenzinho e fomos até o começo da trilha que levava até o mirante da queda. Na ida fui distraído. O cansaço do corpo gripado tirava a atenção dos olhos que miravam apenas a seqüência ininterrupta dos pés percorrendo a longa distância numa passarela sobre um rio calmo. Na volta, após o que descreverei, os olhos vigilantes captavam todos os aspectos da paisagem. Nunca havia percebido como o ambiente fluvial é agradável. Sereno, límpido, ameno, suave: todos os adjetivos possíveis que lembram um frescor renovador. O ruído da correnteza desviando nas cabeças das pedras acima do nível das águas desanuviou toda a fadiga e o descontentamento acumulados. Tudo isso foi possível pelo que vivi quando cheguei ao mirante. Ali, após passar pela última tenda de árvores presentes no percurso inteiro, cheguei ao meu clímax. À primeira epifania de minha vida. Todas as sobras de dúvidas e questionamentos sobre a existência de uma força superior sobrenatural que eu tinha foram convertendo-se em ruínas durante o tempo em que passei frente ao que posso considerar apenas como uma manifestação divina. O inesperado acentuou o sacro. A soberania sagrada estava expressa naquele poder, naquela força energética incessante. Essencialmente pura, em tudo, suas saliências, suas imperfeições, narrativa imaculada. Caio e sua doutrina que me perdoem, mas não existe a possibilidade de presenciar algo gozador de interpretação tão intrincada e prestar seu surgimento ao acaso. Não que seja partidário da ortodoxia, muito pelo contrário, acredito na forma de minha própria crença e na autenticidade de suas metamorfoses constantes. Mas a intervenção de algo completo e intangível em tal fato é evidente. Acho até que é tal imensidão de clareza que nos faz dúbios. Evidente também é o quão afortunado me senti mediante essa vivência. Eu existi um de meus versos musicais favoritos (de The Dog Days Are Over, Florence and The Machine): “Happiness hit her like a bullet in the mind”. A felicidade a atingiu como uma bala na mente. Na mente, no corpo, nos olhos, nos pêlos, na íntegra. Perplexamente feliz. Foi ali que senti, eminentemente sincero e magnânimo, o afago de deus. É nisso que creio.

-2011

Feliz 2011

Tem algo engraçado a respeito da festa de ano novo. Engraçado talvez seja até a escolha errada de palavras, mas pelo menos curioso. A maneira como todo mundo se comporta.

Até umas 23:50 é uma festa normal, como todas as outras, fora as roupas brancas e a preferência unânime pela champagne. Mas aí sempre tem alguém que grita “DEZ MINUTOS!!”. Isso basta pra excitar o povo. A contagem regressiva termina e logo começa o festival de estranhezas. Parece até um ritual, ao qual, pelo menos para mim, falta genuinidade: gente que eu nunca vi na vida me abraça, me beija, deseja tudo de bom. É o único tipo de festa que além de no início e no fim, você cumprimenta os desconhecidos também no meio.

O ainda mais interessante é que a esperança é palpável. “Não, 2011 será bem melhor que 2010”. Assim como 2010 foi melhor que 2009, e esse melhor que o anterior. É surpreendente a obsessão das pessoas pela perfeição. Vi em um filme que a perfeição é incognoscível. Encontrá-la é entender que ela não existe. Não é a divisão cronológica que vai mudar os fatos ou nos fazer menos ou mais infelizes. A virada de ano (mesmo que com lentilha) não é uma renovação que afastará as tristezas, as frustrações e as angústias. É, assim como as religiões, apenas uma superstição que nos conforta e nos guia rumo à uma utopia inatingível. À paz inalcançável. À felicidade inacessível.

Quem sabe ano que vem.

-2011

Agouê

É na tempestade que a natureza vê a oportunidade de mostrar toda a sua magnitude, seu poder. A incontestável beleza já tem ela afirmada todos os dias, ainda mais pelos cariocas. Tão freqüente são os episódios de deslumbre dos cidadãos do Rio, que tal beleza já chega ao ponto de ser chamada de banal e de não ser mais notada como deveria. Mas a tempestade é diferente. Por ser rara (falo das grandes, como a de hoje) chama sempre a atenção e gera, pelo menos em mim, os mais diversos sentimentos – fascinação, medo, liberdade, opressão. E paralela a tudo isso está sempre a presente epifania de que, na verdade, não somos nada em comparação com as forças naturais do planeta; de que essas poderiam, se quisessem, nos criar danos exacerbadamente maiores do que aqueles que causamos. Entendo todos esses trovões que assombram hoje a cidade maravilhosa como um ensurdecedor “cala boca” à arrogância e à prepotência já crescentes do homem. É, de fato, como uma relação entre um filho mimado e uma mãe carinhosa, que agrada mas que repreende quando necessário. E é, já, necessário.